30 DE FEVEREIRO



Por: Golias Lisboa
Quando pequeno, meu pai queria que eu fosse jornalista. Não que eu tenha sido por causa dele apenas, mas houve sim um empurrão. Agora, jornalista esportivo é mérito total dele. Ele torcia por um time lá do interior, em Santa Barbaridade, o 30 de fevereiro. A equipe era tão ruim que eu cheguei a desgostar de futebol e comecei a me interessar por bocha. Entretanto, durante a ditadura juvenil, voltei ao futebol. Mas o time continuava ruim.
Para se ter uma noção do que representava o clube na vida do meu pai, ele era o sócio nº1, além de conselheiro, narrador do estádio e gandula. Em alguns casos, ele jogava de lateral esquerdo, sem deixar de ser gandula, narrador e ainda pagava o ingresso pelo privilégio de estar em campo (mas, modesto, nunca se auto-elogiou durante a narração). Era louco.
Além disso, o clube em si: o mascote era um boi verde, o presidente era o dono do açougue da cidade, os jogadores eram 50% criadores de gado, 25% de milho e 25% criadores de esterco de gado utilizado na lavoura de milho. Além do pai, é claro. Ele vivia do clube. Vendia camisetas na entrada da cidade, escrevia no jornal da cidade sobre o time e até gravou o hino do clube, que era mais ou menos assim:

Agora quem dá bola é o 30 de fevereiro,
Quando surge o 30 de fevereiro imponente,
Uma vez 30 de fevereiro, sempre 30 de fevereiro,
Vamos cantar de coração, o campeão dos campeões!

O rival do 30 de fevereiro era o Jacarense, de Novo Jacaré. Não é atoa que o mascote deste time era o réptil em questão; a torcida do boi verde gritava: “Te liga, jacaré!”. Nada que chamasse a atenção nem dos sabiás que tomavam banho nos buracos alagados do estádio. O clássico, Jacareiro, antigo 30 de Jacarense, movimentava as duas cidades, que juntas, somavam 372 habitantes. Uma multidão de ninguéns.
Enfim, o que tudo isso tem de interessante? Na verdade quase nada. Apenas há um porém: meu pai largou o 30 de fevereiro. Incrível, não? Contudo, isso foi mais recente, logo após eu me formar. Não foi pelas derrotas e tão pouco por sobrecarga de trabalho (chegou a ser centroavante e bandeirinha em uma partida). Foi por eu estar lá, cobrindo os jogos. Ele percebeu o meu envolvimento e, achando eu que ele iria se emocionar, desgostou-se de tudo. Saiu de cena. Hoje ele joga bocha, defendendo os veteranos do New Old Manure. O que quer que eu faça, onde quer que eu faça, ele não iria querer estar lá. Meu pai nunca muda. Talvez quando chegar 30 de fevereiro.
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Sobre Paulo Matheus

Esposo da Daniele, pai da Sophia, engenheiro, gremista e cristão. Seja bem vindo ao blog, comente e contribua!

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