Idiota!

Em uma conversa com um amigo, quis saber a opinião dele sobre um trecho de um livro que compara os escritos de Dostoiévski com C. S. Lewis e afirma ser o primeiro muito mais impressionante que o segundo. Esse meu amigo então reclamou que, na opinião dele, os livros de Dostoiévski são demasiadamente lúgubres e que Dostoiévski e Lewis escrevem para públicos diferentes. Pode ser o caso dessa lugubridade, mas somente em alguns momentos. Os livros de Dostoiévski possuem diversos situações distintas que, muitas vezes são até mesmo hilárias. "O diabo que carregue a opinião desse meu amigo!"

O trecho do livro que compara Lewis e Dostoiévski fala especificamente dos clássicos "Os Irmãos Karamazov" e "Crime e Castigo", sugerindo que estes dois livros fornecem uma reflexão muito profunda das consequências práticas do niilismo. Infelizmente o livro "Os Irmãos Karamazov" não foi concluído pois Dostoiévski faleceu após terminar a primeira parte do livro, deixando seu "herói" sem uma continuação em sua narrativa. Não por isso o livro fica menos impressionante, mas dá uma tristeza não conhecer qual destino teria o personagem principal do livro. E, de certa forma, há uma semelhança muito grande entre o estado psicológico do personagem Ródion Romanovitch Raskólnikov de "Crime e Castigo" e Ivan Fyodorovitch Karamazov de "Os Irmãos Karamazov". A semelhança está no niilismo que ambos professam, embora um deles é "apenas" um niilismo proverbial – que, ainda assim, traz consequências desastrosas para a sua família – e o outro coloca seu niilismo anteriormente proverbial em prática cometendo uma brutalidade sinistra – embora ele demonstre uma bisonhice astronômica e um pavor que o corrói e torna os seus dias cada vez mais lânguidos.

Embora não tenha finalizado a segunda parte do livro "Os Irmãos Karamazov", eu acredito que Dostoiévski direcionaria uma narrativa muito próxima do que foi o príncipe Míchkin, em "O Idiota". Pois Míchkin é totalmente oposto ao niilismo de Ivan e Ródion. Dostoiévski sugere na introdução de "Os Irmãos Karamazov" que, embora o livro seja um tanto entediante no seu início, o leitor talvez não se arrependeria de seguir até o fim da narrativa e verificar o que ele quer mostrar.

A ideia de Dostoiévski em "O Idiota" é escrever o que na sua opinião seria um "cristão ideal", ou pelo menos alguma espécie de cristão cujo comportamento seja positivamente notável. Suas principais inspirações são Dom Quixote (que eu ainda não li) e Jesus Cristo que, segundo o prefaciador da tradução da Editora 34 sugere ser de "uma imensa ternura e também de grande indignação".

Míchkin é um jovem de 26 anos, que sofre de epilepsia, mas também sofre por ser exaustivamente bondoso, honesto e de uma pureza marcante; ou seja, popular e ironicamente conhecido como um idiota. Parece que naquela época também não estava na moda ser assim.

A tentativa do príncipe Míchkin de entrega do seu eu é inclusive motivo de profunda indignação, como quando a personagem Aglaia se irrita com Míchkin por este se ver inferior aos outros, até porque, segundo ela, ninguém ali merecia as palavras dele e ninguém era digno do seu coração, inteligência, honestidade, decência, etc., e ela não entende por que não havia o mínimo de orgulho no pobre Míchkin.

Mas o Príncipe Míchkin não é apenas uma pessoa que fica constante e passivamente se rebaixando sem razões mas, com uma percepção incomparável sobre o comportamento das pessoas, é capaz de descrever as reais intenções e o caráter destas pessoas que estão à volta dele, tal como Rogójin - seu amigo que, no início se apresenta como uma fiel amigo mas posteriormente manisfesta sua verdadeira identidade desregrada e que confessa que sua ira para com Nastácia poderia fazê-lo terminar com a vida dela -, e Nastácia Filíppovna - cuja beleza encanta o Príncipe Míchkin, que oferece seu amor após toda a vida desgraçada que ela tem.

Quero evitar spoilers. O fim do livro, podemos comentar durante um café, sem açúcar, se tu me pagar.

Não é um livro muito fácil de se ler. Uma das razões é a quantia enorme de personagens ordinários (e o próprio Dostoiévski dá uma atenção muito grande à essa ordinariedade, de certa forma elogiada pelo autor) que o livro apresenta e, para quem nunca leu algo da literatura russa, talvez fique ainda um pouco mais difícil tentar memorizar os nomes dos personagens. Mas acredito que vale muito a pena o esforço de ler esse livro, principalmente pela sua riqueza sobre estados psicológicos que Dostoiévski soube descrever com uma riqueza incomparável.

Tenho mais uma justificativa para considerar que a narrativa de Dostoiévski na segunda parte de "Os Irmãos Karamazov" seria muito próxima do que foi "O Idiota": o biógrafo de Dostoiévski, Joseph Frank, considera que o livro "O Idiota" é a obra mais autobiográfica de Dostoiévski. Ora, ninguém pode considerar alguém positivamente belo uma pessoa e não seguir de alguma forma esse ideal. Me parece que fazer uma excelente descrição de seu "herói" era o caminho que Dostoiévski queria seguir em "Os Irmãos Karamazov".

Nesses momentos de reflexões sobre os livros de Dostoiévski, me parece que "O Idiota" deu um salto para o primeiro lugar na lista dos meus favoritos, embora eu só tenha lido três até agora.

Por: Alisson Henrique de Souza

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Sobre Paulo Matheus

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