Que igrejas frequentaram os fundadores das três principais seitas do século XIX?


Venda de trigo milagroso, mensagens especiais e adivinhações da volta de Cristo. Estas características integram três seitas surgidas no século XIX que, somadas, não chegam a 50 milhões de adeptos (ou cerca de 2% do total de cristãos no mundo). Testemunhas de Jeová, Igreja dos Santos dos Últimos Dias (conhecidos como 'mórmons') e a Igreja Adventista do Sétimo Dia (conhecidos apenas como adventistas) integram uma parte curiosa da fé cristã: possuem uma mensagem específica, da qual dizem estar corretos em suas práticas, de modo que todo o resto - ou seja, 98% do total de cristãos - estão no caminho da perdição.

Seitas, e não um seguimento, como poderíamos atribuir aos pentecostais, batistas, metodistas, presbiterianos, católicos, ortodoxos, etc., por não aceitarem a salvação apenas pelo sacrifício de Cristo, mas por outros meios, tais como: descanso do sábado literal, mensagem específica adicional e interpretações isoladas das escrituras (os mórmons e os adventistas admitem publicamente uma espécie híbrida da trindade, algo recente, talvez como uma forma vista para trazer semelhanças com as outras tradições; diferentemente, as testemunhas que permanecem "firmes" em sua crença nada ortodoxa no assunto).

Seriam necessárias várias páginas e parágrafos para detalhar o que cada uma das seitas possuem de diferenças com os tradicionais seguimentos cristãos. O objetivo aqui é analisar como se iniciou a caminhada religiosa destes três norte-americanos do século XIX (ainda que eu não seja anti-americano, não consigo vislumbrar uma explicação para esta "nação eleita") e tentar traçar os principais motivos que os fizeram ir contra o que pregam a maior parte da cristandade.


Joseph Smith

O primeiro dos três, Smith parece ter tido contato com duas tradições: presbiterianos e metodistas. Entretanto, a forma como se deu este contato não pode ser comparado aos dias de hoje, e sim a questão histórica do início do século XIX. O calvinismo estava em declínio, e os avivamentos eram realizados essencialmente por batistas e metodistas (essencialmente arminianos). A impressão é que ele captou do presbiterianismo uma conclusão negativa, uma vez que, em vista do declínio da fé reformada e da própria religiosidade, havia uma cisão clara entre as chamadas Velhas e Nova escola do presbiterianismo (Velha, do hipercalvinista Hodge, que não aceitava o avivamento que ocorria nos Estados Unidos, e a Nova, com Edwards e, de certa forma, Finney, já que sua defesa anti-escravidão rompia com a Velha escola). Mas parece ter sido ainda mais familiar, em decorrência da morte do irmão de Smith: ele parece ter ouvido do ministro presbiteriano que seu irmão havia ido para o inferno, e sua mãe reclamou da frieza com que os presbiterianos consolavam a família durante a situação trágica. [1]

A origem religiosa de Smith pode ser considerada ainda menos direcionada a apenas estes dois seguimentos: seu avô paterno, ao que parece, era um universalista (provavelmente não um universalista cristão, já que ele parecia defender a razão científica), seu avô materno teria tido visões que o fizeram se converter ao cristianismo; tal como seus pais, que também tiveram visões religiosas, mas que na verdade estavam apontando para algo diferente da religião organizada - mas que, na pessoa do filho Smith se organizaria mais tarde.

Em resumo, o interesse de Smith pelo presbiterianismo, com a influência negativa do calvinismo, e o interesse pelo metodismo, ainda que através dos avivamentos que ocorriam em sua época, parecem tender ao interesse que ele tinha em explicar para si as suas visões, mas essencialmente, toda a sua influência era essencialmente mística:
...seus pais, tal como seus avós, eram supersticiosos, neuróticos, tinham visões e acreditavam em curas milagrosas, em vozes celestiais e revelação direta (...); Joseph, um menino preguiçoso e de boa índole, sofrendo de uma má hereditariedade física e psíquica, começou a ter visões que parecem ter acompanhado crises epileptoides (o pai de sua mãe estava em crise), das quais se recuperou aparentemente antes de se tornar adulto. O pai do menino era um escavador de tesouros escondidos e usava uma vara de adivinhação para encontrar lugares apropriados para cavar poços, e nessa época o filho se tornou um contemplador de cristal e, com o uso de uma "peepstone" (pedra usada na tradução do livro de Mórmon), descobriu o paradeiro do pretenso tesouro escondido. [2]
Das três seitas, o mormonismo está mais distante de ser apenas uma interpretação diferente da Bíblia. Apesar de Ellen White ser considerada uma profeta, Joseph Smith trouxe adições ao cânone bíblico, que contradizem principalmente a mensagem de salvação através da fé em Cristo. [3]


Ellen G. White

Primeiramente, é preciso fazer uma menção a William Miller. Antes de Ellen White tentar amenizar a escatologia furada do grande desapontamento, Miller era quem podia ser chamado de adventista. Ele fora um batista, tendo se distanciado para o deísmo posteriormente, e retornando aos batistas na sua declarada conversão. Durante todo este período anterior ao movimento chamado millerista em sua homenagem, ele fora um maçom. Em síntese, não tinha qualquer apreço pelo cristianismo formal mas, curiosamente, as passagens proféticas de Daniel lhe chamaram a atenção e, tal como Isaque Newton, mas com uma petulância que ultrapassava qualquer limite, calculou a data exata da volta de Cristo (entre 1843 e 1844). Obviamente, era em sua própria época e ele tinha que alertar toda a América do Norte. E, obviamente, nada aconteceu.

O fato, entretanto, não foi descartado, mas obteve uma nova interpretação, e coube a Sra. White explicar o que aconteceu. Ao dizer que os cálculos não estavam errados e que realmente estava acontecendo algo no céu nos mostra que algo especial estava ocorrendo nos Estados Unidos naquele século, e que importava para todo o resto da cristandade (ou não).

Mas enfim, de onde surgiu Ellen White? Sua conversão se deu aos 12 anos, em 1840, em uma reunião metodista (a história conta que suas reflexões já estavam mudando após ela levar uma pedrada no rosto aos 9 anos). Porém, neste mesmo período da conversão, ela teve contato com o furor da volta de Cristo preconizada por Miller. Sua família aderiu em peso, deixando de lado o metodismo. Umas das explicações para o grande desapontamento era a de que os homens não estavam respeitando o sétimo dia (o quarto mandamento). Ou seja, TODOS estavam errados até aquele momento, exceto os judeus - mas apenas neste ponto, é claro. [4]

Alguns podem afirmar que o fato de Ellen White ter convivido em um ambiente metodista, e não o presbiterianismo, a tornou mais próxima dos cristãos tradicionais (sem dúvida, o proselitismo adventista se usa do fato de que eles creem em praticamente todos os pontos que um luterano professa, por exemplo, salvo "raras" exceções). O grande problema que ela criou foi um uso excessivo do legalismo, por conta do "cumprimento" da lei mosaica. [5] E, como resultado, existem diferentes correntes de adventismos hoje, desde seguimentos que defendem o vegetarianismo, abordado em alguns escritos de White (que aliás, são considerados proféticos, inclusive alguns plagiados), e até terraplanistas. A presunção que o legalismo provoca não se resume ao sábado, e sabemos que podem gerar todo tipo de barreiras entre o homem e Deus, berreiras estas derrubadas por Cristo na cruz.


Charles T. Russell

A lista de interpretações de Russel que diferem do cristianismo comum são tantas e de tamanha excentricidade que, na opinião desse que vos escreve, tornam as Testemunhas de Jeová a seita mais distante do cristianismo tradicional. Acha improvável? Aqui, é claro, estou analisando a origem religiosa dos criadores das seitas, mas a característica fundamental das Testemunhas de Jeová é a primazia pelos estudos das escrituras. Ou seja, diferente de White e Smith, Russel não recebeu nenhuma mensagem especial. Qual o motivo, então, de serem tão singulares?

Bem, Russel começou como um presbiteriano, até aproximadamente o começo da idade adulta.
Quando tinha 20 anos, Russell havia deixado o Presbiterianismo e o Congregacionalismo porque não conseguia conciliar a ideia de um inferno eterno com a misericórdia de Deus. [6]
Os pais de Charles acreditavam sinceramente nos credos das igrejas da cristandade e o educaram para aceitá-los também. Assim, o jovem Charles foi ensinado que Deus é amor, mas ele criou homens inerentemente imortais e proporcionou um lugar ardente no qual atormentaria eternamente todos, exceto aqueles que haviam sido predestinados para serem salvos. Tal ideia repeliu o coração honesto do adolescente Charles. Ele argumentou: "Um Deus que usaria seu poder para criar seres humanos que conheceu e predestinou deveria ser eternamente atormentado, não poderia ser sábio, justo ou amoroso. Seu padrão seria mais baixo que o de muitos homens". [7]
Esta é a chamada dupla predestinação. Uma dedução enfatizada com vigor pela Velha escola do mesmo século de Russel, no qual Deus predestinou alguns para a salvação e os demais para o inferno. A predestinação dos incrédulos ao inferno implica da inexistência de livre arbítrio, que neste caso elimina a crença de que a salvação está disponível a todos os homens. Por esta ótica, se o homem não participa do processo de salvação, não há livre arbítrio (nem para salvos, nem para incrédulos) e o julgamento divino é arbitrário. Esta visão determinista da fé é denominada de hipercalvinismo, não sendo endossado por parte dos reformados.

Todavia, segundo as testemunhas, seu problema parecia ser mais com a diversidade de denominações e sobre saber qual delas era a correta. 
Ele havia entrado em ceticismo quando um encontro casual com alguns seguidores do movimento adventista iniciado por William Miller apresentou-lhe a ideia de que a Bíblia poderia ser usada para prever o plano de salvação de Deus, especialmente como o plano relacionado ao fim do mundo. [6] 
Mas o jovem Russell não era ateu; ele simplesmente não podia aceitar os ensinamentos comumente entendidos pelas igrejas. [7]
Ou seja, não se sabe ao certo se ele se tornou cético ao abandonar o presbiterianismo, apenas deixou as velhas instituições cristãs, ou - aquela hipóteses mais tentadora - ele nunca foi de fato um cristão.

Não sou adepto, como alguns soteriologistas fazem, de somar os versículos que apoiem a minha visão para refutar o número de versículos que apoiem a outra visão, mas parem um dia e comecem a somar o número de empecilhos que Russell deixou para nossos amigos da Torre de Vigia: 144 mil vagas para o céu, nada de doação de sangue, [8] nem exército, trindade, sem feliz aniversário (a páscoa sim) e natal, salvação pelas obras, aniquilação (não confundir com o Mortal Kombat), a volta de Cristo, tradução diferentona da Bíblia, não existe inferno (um gol para os vilões), etc. Isso sem contar com a proeza de serem proibidos na Rússia.


Os três, portanto, transitaram invariavelmente entre o presbiterianismo (Russel e Smith) e o metodismo (Smith e Russel). Smith parece ter tido contato superficial com as duas e Russel fora de fato um presbiteriano até o começo da vida adulta, e White metodista durante a infância. White e Smith são contemporâneos do segundo grande avivamento, e Russel adotou algumas posturas advindas dos adventistas milleristas.

Logo, não se atenham a quem foram os responsáveis pelos três e suas obscuras interpretações singulares do século XIX, mas sim ao que estes três decidiram fazer por sua conta em risco. Eu mesmo não posso por em cheque se eles surgiram das denominações organizadas ou do grande avivamento, mas sim apontar o que se seguiu após; podemos concordar que todos surgiram nos Estados Unidos, todos tiveram interpretações próprias e, infelizmente, todos criaram seitas, das quais, pelo número de exigências, carregam problemas em serem consideradas cristãs.

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Notas e recursos:
[1] The Encounter of the Young Joseph Smith with Presbyterianism (O encontro do jovem Joseph Smith com o presbiterianismo), por John Matzko, páginas 68-84. Disponível em Dialogue Journal.
[2] Encyclopædia Britannica Eleventh Edition. Volume 18. Disponível em Archive.
[3] Se você está maduro na fé, veja essa interessante "refutação" das Testemunhas de Jeová ao Livro de Mórmon - com destaque para este trecho: "Será que Deus revelou estas coisas vitalmente importantes aos habitantes da América do Norte daquela época e não a estes seus amados servos hebraicos?" (a recíproca não seria equivalente no caso de Russell?). Disponível em JW.
[4] A história da conversão de Ellen White. Disponível em Adventist Review.
[5] Ver Hebreus 7:19 aqui
[6] Charles T. Russel. Disponível em Britannica
[7] Jehovah's Witnesses-Proclaimers of God's Kingdom (Testemunhas de Jeová Proclamadores do Reino de Deus. Disponível em Faithleaks
[8] O que os adventistas se diferenciam das testemunhas de jeová? (Aqui você pode notar a diferenças fundamentais entre as duas seitas, como por exemplo: ao contrário das testemunhas de Jeová, os adventistas doam sangue e gostam de mostrar isso com muito louvor - quanto a isso, ver Mateus 6:1 aqui). Artigo disponível em Adventismo em Foco.

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Sobre Paulo Matheus

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