Vida intelectual

Até onde posso ver, a vida intelectual não é sinônimo de curiosidade. A curiosidade busca o saber desenfreado sobre coisas aleatórias e desconexas uma das outras. O curioso parece não saber muito para onde quer ir. Absorve todo tipo de informação que não lhe é proveitosa e não sabe o que vai selecionar para se especializar, muito menos o que fazer com o que sabe. Entra num site científico aqui, outro de notícias ali. Passa a noite entre sites anteriormente desconhecidos, pulando de um link para outro. E às vezes retorna para as coisas inúteis que esqueceu. Sua "pesquisa" é como num labirinto onde a pessoa que está perdida evita de contemplar o caos antes de tentar resolvê-lo de imediato.

Esse problema da curiosidade também é muito comum no meio filosófico, uma vez que o filósofo, como dizem, é capaz de ler variados tipos de assuntos e tem "estômago de bode". Se o bode come de tudo, eu não sei e pouco me interessa aqui. Mas parece que é verdade que muitos "filósofos" querem demonstrar supremacia intelectual ao poder palpitar sobre qualquer assunto, uma vez que se informaram sobre o que se está sendo debatido. (Coloquei filósofos entre aspas pois há uma grande diferença entre o estudante de filosofia que entende pouco sobre muitos assuntos e aquele que sabe muito sobre um determinado assunto e é capaz de pensar por conta própria.)

Mas isso não parece ser um problema somente dos "filósofos". Há também entre não acadêmicos esse problema de querer palpitar sobre tudo sem, na maioria dos casos, ser um entendedor do assunto. A razão de tal procedimento humano talvez devamos deixar para algum psicólogo responder. Mas é bem comum entre muita gente querer ser um participante da conversa, afinal, quem quer parecer intelectualmente inferior por não poder "palpitar"? Os curiosos e outros impertinentes não ficam calados, atentos ao que está sendo dito, mas estão o tempo todo preparando algum ponto relacionável ao que está sendo dito. A questão é que, como sugeriu o filósofo Mário Ferreira dos Santos, na filosofia (aqui ele sugere que é na filosofia, mas creio que também deve ser em muitos outros assuntos cotidianos, que também deveriam ser discutidos de uma perspectiva filosófica, evitando falácias e ordenando o pensamento lógica, epistemológica e metafisicamente) a única autoridade é a demonstração. Demonstrar é rastrear a razão de pensar daquela forma e não simplesmente acreditar no que se está sendo afirmado. E é também evidente que não se pode acertar em todos os raciocínios, ainda que sejam bem fundamentados e complexos.

Pode sim parecer um pouco presunçoso ou arrogante o termo "vida intelectual". Mas quero me referir ao fato de que há sim pessoas que se dedicam a saber mais sobre um determinado assunto do que o habitual. Que não se apóia em palpites sobre enunciados complexos fazendo alguma forma de reducionismo significativo ou caindo na "falácia da ignorância". O intelectual sabe para onde vai e tem um direcionamento em seus estudos; evita dispersões ou as informações inúteis. Sabe evitar também a "orgia da literatura".

Por: Alisson Henrique de Souza

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Sobre Paulo Matheus

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