Epistemologia

Muito se afirma que o conhecimento faz parte de nossos dias. Mas sobre a natureza do que é conhecer, pouco é esclarecido por aqueles que afirmam conhecer. Que tais pessoas possuem conhecimento não depende, é claro, de estas pessoas possuírem apenas uma boa explicação para o que é conhecer, mas talvez de uma ou mais condições suficientes que sejam satisfeitas pelo sujeito conhecedor no processo de adquirir conhecimento de algo. Parece-me ser necessário que para julgarmos se uma pessoa possui ou não conhecimento, precisamos encontrar quais são essas condições que, sendo satisfeitas, possibilitam um sujeito qualquer a afirmar racionalmente que possui conhecimento de algo. Na verdade, o conhecimento científico é um tanto fácil de ser verificado, uma vez que exige uma certa repetibilidade dos eventos; diferentemente de proposições contingentes sobre o mundo, que por serem filosóficas necessitam de algum procedimento de raciocínio para se obter uma correta compreensão. É mais fácil de se argumentar sobre as ciências brutas, como quando assim o faz a Engenharia, do que analisar a Filosofia, ainda que exista muitos palpites. Bem, não vamos entrar em muitos detalhes acerca da natureza do conhecimento, mas tentar de alguma forma dar uma breve explicação introdutória sobre noções básicas em Epistemologia.

A Epistemologia é a área da Teoria do Conhecimento que analisa basicamente três coisas: "o que é conhecimento" se "é possível conhecer alguma coisa" e, caso seja possível o conhecimento, "como" o adquirimos. A palavra conhecimento na Epistemologia é classicamente conhecida pela definição dada por Platão como "opinião verdadeira acompanhada de explicação racional" ou, como nos tempos modernos colocou Roderick Chisholm, "crença verdadeira justificada". Também no grande livro da Epistemologia, temos a contribuição de Richard Feldman para expor melhor o problema do conhecimento em estados mentais, mas que ilustra como as proposições não se organizam em nossa mente:

"[O] conhecimento não é um puro ‘estado mental’. A condição de uma pessoa saber depende tanto de como sua mente é – o que ela crê e por quê – e como o mundo é. [...] Note que, o que quer que nós digamos sobre o conhecimento, pode haver casos de ‘crer verdadeiramente’ e de ‘crer falsamente’ que são introspectivamente indistinguíveis. Crenças verdadeiras não tem uma luz mais brilhante que as crenças falsas. Não há nenhum ‘V’ piscante diante do olho de sua mente quando você tem uma crença verdadeira. Não há nenhuma característica interna que acompanha todas e somente todas as crenças verdadeiras [all and only true beliefs]."

É assim chamado crença   uma das condições do conhecimento na Epistemologia, porque ninguém pode conhecer alguma coisa que não crê. Essa impossibilidade lógica e epistêmica pode ser exemplificada na frase do Chapolin, que afirmou: "Eu não acredito em discos voadores, mas que eles existem, existem!" Bem, é óbvio que para conhecer algo, uma pessoa precisa crer que tal coisa seja o caso. A crença é uma operação do intelecto que julga. Julgar, assim como nos apresentou Kant, é qualificar proposições. Considere por exemplo uma maçã que realmente é vermelha. Nós a qualificamos quando dizemos "aquela maçã é vermelha" (juízo positivo verdadeiro); quando dizemos "aquela maçã não é azul" (juízo negativo verdadeiro); quando dizemos "aquela maçã é azul" (juízo positivo falso); e quando dizemos "aquela maçã não é vermelha" (juízo negativo falso). A crença, portanto, é uma condição necessária para o conhecimento. Jamais diríamos que uma pessoa que usa a percepção sensorial para experimentar algum objeto, mas crê que aquele objeto não está ali, possui de fato conhecimento sobre tal objeto.

A condição de verdade da proposição também é necessária para constituir um caso de conhecimento, pois ninguém pode conhecer algo que não seja verdadeiro. Aqui não se está discutindo a ideia de que é impossível obter conhecimento acerca de proposições que expressam falsidade, mas sobre a relação que essa proposição possui com a realidade. Que existem contradições foi algo que Aristóteles esclareceu; mas ele também argumentou sobre a impossibilidade de uma contradição subsistir. Uma das coisas contraditórias entre si deve (por uma questão lógica básica) subsistir, e a outra, deve ser necessariamente falsa. A verdade está mais para um condição metafísica do que epistemológica e, portanto, sua existência é pressuposta para ser possível analisar as condições de conhecimento.

A terceira condição diz respeito ao processo de como adquirimos conhecimento, se ele é uma boa razão para um sujeito afirmar que possui conhecimento de algo. O conhecimento precisa se dar de alguma forma na mente do sujeito, pois o mero palpite destituído de qualquer justificativa, não convence quando se está determinando se há conhecimento sobre alguma proposição contingente. A justificativa é então, o terceiro critério a ser considerado quando se está analisando as condições de possibilidades de conhecimento.

Muitos filósofos destacam algumas fontes pelas quais obtemos conhecimento, seja ela uma fonte primária ou secundária de conhecimento. Um filósofo que expõe de uma forma clara essas fontes é Robert Audi, e afirma serem as fontes primárias a percepção sensorial, a memória, a introspecção e a intuição a priori (razão); e as fontes secundárias são a indução através da generalização e o testemunho. A diferença entre estas duas categorias de fontes é que nas fontes primárias o sujeito conhecedor não depende de fatores externos a si mesmo para possuir conhecimento de algo, mas sim dos seus próprios sentidos para conhecer. Já nas fontes secundárias é necessária uma espécie de confiança a mais de que os meios externos sejam verdadeiros e suficientes para gerar conhecimento.

A percepção sensorial é talvez a mais básica de todas as fontes, ou talvez a mais comum, e apela para os sentidos que o ser humano possui e que se relacionam com o mundo externo. Tais sentidos são popularmente conhecidos como a visão, o olfato, o paladar, a audição e o tato. Através desses sentidos, o ser humano se relaciona com os objetos do mundo e pode conhecer tais objetos vendo eles, ou ouvindo, etc.

A memória pode gerar conhecimento quando um sujeito qualquer apela para a sua própria memória de algum fato do passado para, a partir disso, saber no tempo presente que se julga possuir ou não o conhecimento. O fato de nos esquecermos de eventos do passado não se segue que no presente ou no futuro tal evento não possa vir à tona em nossa mente através da memória e, assim, gerar conhecimento sobre algo.

Na introspecção o sujeito reflete sobre verdades da lógica e da matemática e, sem apelar para o mundo externo, conhece verdades que podem ser provadas através da reflexão sobre a natureza de tais procedimentos introspectivos. E é também uma fonte primária de conhecimento, pois o sujeito conhecedor pode ter acesso imediato à essa fonte, apelando à própria introspecção para tal.

Na intuição a priori o sujeito conhece através de experiências anteriores aquilo que está diante dele. Ele sabe, por exemplo, que o todo é maior do que a parte. Da mesma forma como sabe que se A é maior que B, e B é maior que C, então A é necessariamente maior do que C. Não é necessário a experiência a posteriori para ele então conhecer o que se dará.

Já na indução o sujeito conhece, através de eventos anteriores particulares do qual experimentou ou outras pessoas experimentaram, inferindo daí uma generalização sobre tais eventos particulares. Existe uma certa probabilidade que está relacionada com uma espécie de garantia para o sujeito conhecer. A indução é muito utilizada na ciência, como quando inferimos que se há uma repetibilidade possível de se prever, então será sempre assim. Por exemplo, se todo objeto suspenso no ar ceteris paribus caiu após ser solto, infere-se que será sempre assim a partir da generalização desses eventos particulares.

O testemunho é também uma fonte de conhecimento muito válida. E é talvez a fonte mais utilizada por nós. Quando alguém executa algum experimento em laboratório, é relatado em algum livro ou artigo, tudo o que aconteceu e então tais informações são compartilhadas com as pessoas que possuem interesse no experimento. Na ciência, isso é muito comum. Há, aliás, uma infinidade de pessoas que executaram os mesmos experimentos e relataram resultados idênticos aos que foram primeiramente testados. Em certo sentido, não é necessário que todas pessoas vão a um laboratório executar o mesmo experimento para saber se o relato dos experimentos anteriores são corretos. Mas, dado a confiabilidade dos experimentos anteriores, aceita-se como um testemunho válido que tais procedimentos foram devidamente executados. Isso acontece em diversas áreas de nossa vida. Não analisamos se o médico é realmente formado e capaz de nos diagnosticar e medicar; não analisamos se o farmacêutico não nos enganou, substituindo o remédio da caixa por algum outro qualquer; não examinamos o próprio remédio antes de ingerir, ou se a água da torneira não foi envenenada. Antes, cremos através do testemunho que nenhuma destas coisas listadas conspiram contra nós. E de fato, quase sempre estamos justificados a crer assim.

Em se tratando da justificativa para as crenças, os epistemólogos diferem no que diz respeito ao processo como essa justificativa se dá no indivíduo. Os internalistas argumentam que a justificativa para a crença gerar conhecimento depende de critérios internos na mente do sujeito conhecedor. Já os externalistas creem que os critérios para conhecer estão fora do sujeito.

No ano de 1963, um filósofo chamado Edmund Gettier problematizou a análise clássica de conhecimento, argumentando que há casos de crença verdadeira justificada onde não se constitui caso de conhecimento. Em seu artigo (de apenas duas páginas!), ele apresenta dois exemplos que evidenciam que as condições da análise clássica são no mínimo insuficientes. Um de seus contra exemplos se segue mais ou menos assim: Jones e Smith trabalham em um lugar onde eles sabem que um dos dois será promovido, mas Smith crê que quem será promovido é Jones e Smith sabe que Jones possui dez moedas em seu bolso. A partir disso, Smith infere a seguinte proposição: "o homem que será promovido possui dez moedas no bolso". Acontece que quem será promovido é o próprio Smith e, sem que ele saiba disso, ele também possui dez moedas em seu bolso! Sendo assim, sua crença "o homem que será promovido possui dez moedas no bolso" é uma verdade, mas por ter sido uma mera coincidência que Smith creu nessa proposição, os epistemólogos argumentam que Smith não conhece (sabe) que "o homem que será promovido possui dez moedas no bolso". Gettier problematizou tanto a análise clássica do conhecimento que milhares de páginas foram escritas para tentar solucionar seus contra exemplos. Mas não há como tratar de tudo aqui.

O ceticismo é uma crença que põe em cheque a possibilidade de conhecimento, ou pelo menos não podemos conhecer algumas coisas em específico. Céticos pirrônicos, por exemplo, negam que literalmente nada pode ser conhecido, nem mesmo esta própria afirmação de que "nada pode ser conhecido"! O famoso e antigo Trilema de Agripa é um argumento cético e que impõe algumas justificativas pelas quais não é possível conhecer, que se segue com: (a) as razões para o conhecimento continuam indefinidamente; (b) as razões terminam num ponto em que não há mais razões disponíveis para apoiar as últimas; (c) as razões circulam em torno de si mesmas. Assumir um trilema de Agripa como verdadeiro é claramente uma petitio principii e um ad hoc. Não podemos justificar o trilema sem uma espécie de "Prior Grounding Requirement". O fundacionalismo epistêmico consente que as opções (a) e (c) sejam céticas mas nega que (b) o seja; o coerentismo afirma que (a) e (b) são céticas, mas nega que (c) o seja.


A epistemologia é uma área da filosofia extremamente vasta, e seus interesses se estendem sobre a moralidade, racionalismo, ciência, religião, etc., mas acredito que esse texto serve para dar uma breve introdução e despertar um pouco mais de interesse sobre o tema.

Por: Alisson Henrique de Souza

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Sobre Paulo Matheus

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