O Brasil está guinando à direita?

Depois do resultado das eleições presidenciais, ficou evidente que o povo está trocando de espectro. Ao menos, os votos nos partidos de esquerda e centro-esquerda diminuíram drasticamente e, pelo andar da carruagem, elegerá, por um bom tempo, governadores e o presidente postos no outro lado do espectro. Mas, há provas de que estes que estão aí seriam realmente relacionados "à direita"?

Como já disse, sou o que se pode chamar de um "comunitarista de direita" (já que o comunitarista, ao contrário do conservador, não descarta os benefícios do liberalismo econômico, na maioria dos casos obviamente). Mas existe também uma definição voltada ao nacionalismo, que pode também tornar este debate de espectro mais amplo. Carlton Hayes definiu quatro tipos de Nacionalismo: liberal, jacobino, tradicional e integral. O Nacionalismo liberal, que emerge nos séc. XVII e XVIII, acentua o Constitucionalismo e os direitos individuais; julga a existência da Nação-Estado como indispensável ao máximo desenvolvimento do indivíduo. O Nacionalismo jacobino é a expressão de comunidade conscientemente dedicada a tornar acessível a outros povos os valores do Nacionalismo, que é militante e religioso. Em sua determinação de oferecer os valores de liberdade e autodeterminação aos outros povos, assume aspecto autoritário e expansionista. O Nacionalismo tradicional incita a comunidade a tornar-se invulnerável às doutrinas exteriores que o estão ameaçando de fora. Filia-se num padrão mais antigo de tribalismo, no qual os direitos e valores grupais subordinam direitos e valores individuais. É uma reação essencialmente defensiva e isolacionista. O Nacionalismo integral, segundo o qual o indivíduo perde significação, e o direito da comunidade a viver e sobreviver se torna o objetivo primordial, é bem mais dinâmico e expansionista. Usualmente determina a organização totalitária da sociedade e procura dominar os outros, em nome da própria superioridade nacional. [1]

Ora, nessas definições, podemos destacar os dois primeiros tipos de nacionalismo (liberal e jacobino) encontrados explicitamente em dois exemplos clássicos que ouvimos por aqui: a Holanda e os Estados Unidos. A Holanda, que se encaixa perfeitamente no exemplo de nacionalismo liberal, é o principal exemplo que os liberais políticos utilizam como exemplo a ser seguido pelo Brasil. Não compactuo com isso, não só pelo fato de que, sendo cristão, discordo da liberação das drogas e do aborto, mas pelo fato de a Holanda, ainda que chamado Países Baixos e se constituir de algumas culturas diferentes, minúsculo para se comparar com o Brasil. Não ouço nos discursos destes liberais, a descentralização do Estado. Com a descentralização, com os Estados Federalizados, seria fácil, em uma dada localidade autônoma, praticar as leis liberais se assim a população gostar e observar os resultados. Isso deixa claro que sou favorável ao modelo ianque: cada Estado tem autonomia plena (fiscal, legislativa, etc.). Além disso, e ainda que a definição de nacionalismo jacobino seja assustadora para alguns, os Estados Unidos se mostram autoritário para com países que mantém acordo, muitas vezes militares para o efetivo desempenho. O resultado, pavoroso do ponto de vista daqueles que também consideram os norte-americanos de "Grande Satã", é o reforço de sua própria liberdade econômica e religiosa nos países (veja o exemplo das Coreias).

Já dentre os outros dois exemplos de nacionalismo, não consigo ver um horizonte pleno em que se possa espelhar como ideal. O nacionalismo tradicional é aquele que está cego em sua própria ideia de grandeza nacional. Este tipo, como descrito por Hayes, não aceita intervenção externa, ainda que esteja em frangalhos. Talvez haja exemplos mais específicos, mas o termo "tribalismo" não me faz remeter ao nosso moderno conceito de governo islâmico, seja qual país for, que favorece um governo ditatorial, o empobrecimento cultural e diminuição dos direitos individuais - mas ainda assim são defendidos por alguns. E o mais catastrófico de todos os nacionalismos, o integral, também não possui um país específico, mas sim uma ideologia específica: o comunismo. Em sua prática, não há liberdade individual alguma, já que o Estado é quem controla tudo. Se serve o passado, o item "expansionista" se encaixa perfeitamente na conta da extinta União Soviética (uma ressalva: este item, o nacionalismo integral, também de certa forma engloba o fascismo e o nazismo, já que também eram expansionistas e totalitários; esse é um debate longo e fica para uma outra postagem).

Bom, dito isto, podemos encontrar aqui base para duas perguntas: existem figuras relacionadas com a direita no Brasil? E, mais importantes, existem, sinceramente, políticos de direita no país?

Sobre o item "figuras", eu quero dizer em tudo. Existe mídia de direita? Com status de formadora de opinião, não. Todas as grandes emissoras são declaradas "imparciais", ou seja, todas estarão à favor do governo, independente do espectro, já que o importante mesmo são as verbas que de lá surgem. Ou seja, aqui não há uma Fox News, por exemplo. Existem entidades de direita no país? Talvez. Nominalmente, não. Todas as instituições, sejam religiosas, empresariais ou filantrópicas, em algum momento, precisam se declarar isentas de qualquer assunto que não sejam os seus próprios, já que existe, de forma velada, uma ditadura judicial com relação à liberdade de expressão. Isso, obviamente, dá margem para a "política de interesses", já que, em nome da própria sobrevivência, essas instituições devem nadar conforme o vento. Personalidades de direita? Sim, estes, de certa forma, existem. E de vários tipos, desde centro-direita até mesmo extremos-direitistas, e a maioria deles apenas prejudicam os debates. Cito aqui dois sujeitos que hoje são os maiores nomes do combate à cultura comunista, apesar de só um deles gozar de créditos entre os protestantes (ainda que os dois tenham defeitos equivalentes): Olavo de Carvalho e Júlio Severo. Sem dúvida, quem é protestante e gosta de ler sobre o assunto "cristãos não-progressistas", já deve ter ouvido falar de Olavo de Carvalho, um ex-comunista e astrólogo. Em muito menor escala, Júlio Severo. Os dois são conhecidos por dois tipos de extremismos mas só um deles leva crédito. Por quê? 

O "filósofo" Olavo é conhecido por emitir opiniões contundentes contra o marxismo nas instituições brasileiras. Isso soa atraente aos protestantes. Exceto pelo fato que o próprio é um ardente opositor do protestantismo, se comunica muito bem com Caio Fábio, nome mais conhecido pelo fenômeno dos desingrejados (além de, curiosamente, apresentar seus vídeos de uma forma semelhantemente irônica). Já Severo, é conhecido por uma defesa mais "neo-pentecostal" de mundo, muitas vezes denunciando assuntos sérios e de fato existentes, mas em outros casos, sendo extremista (principalmente na questão do homossexualismo).

Olavo, assim como alguns fazem ou faziam outros conhecidos, são sedutores dos contrários à Teologia da Prosperidade. Severo, o outro lado, é um ferrenho perseguidor da Teologia da Libertação. O caso é que a balança pesou em excesso do lado perseguidor da T.P. e a T.L. passou despercebida. 

Não estou aqui incentivando que façam agora uso de um para que fiquemos em "equilíbrio". Não existe isso. Apenas seja sensato antes de eleger mais um ídolo e desprezar outros - como se fossem mais pecadores e menos sábios por isso. Recentemente, antes da leitura de "Os Demônios", de Dostoiévski, assisti um vídeo alerta de Olavo, achincalhando a tradução feita por Paulo Bezerra, que viveu na União Soviética por intermédio do partido comunista brasileiro - que nos anos anteriores à ditadura possuía algum prestígio. Ora, o que um comunista, que viveu no fracasso soviético, poderá alterar no livro profético que já falava sobre esse fracasso décadas antes? Falando assim, parece que estou exagerando, mas o vídeo é simplesmente um serviço voluntário à burrice. Segundo esta lógica, um ex-comunista reconhece um perigo mais facilmente do que um outro ex-comunista? Não faz o menor sentido.

O Brasil, de fato, copia um modelo holandês de multipartidarismo, o que ajuda a confundir boa parte da população. O Brasil, também, se mostra muito mais conservador do que liberal - qualquer pesquisa sobre direitos individuais prova ou provará isto, tal como os norte-americanos. Se ser de direita significa ser conservador, ou seja, defender a liberdade de progredir individualmente, nosso país então é de direita ou nacionalistas jacobinos, por assim dizer. O problema é que muitos ainda têm a falsa impressão de que o Estado deveria lhes ajudar, mesmo aqueles que trabalham na informalidade - ou seja, que se viram como podem sem pagar a alta taxa tributária. Estes, na realidade, são iludidos por aqueles defensores do nacionalismo integral, onde até mesmo o mais miserável deve contas ao governo, sob a falsa afirmação de que o Estado "deve prover o bem estar social". 

Não vejo mudanças nas nomenclaturas, mas acredito que o país esteja entendendo melhor essa questão. Precisamos pagar menos impostos, logo, precisamos de menos Estado, o que é um crime para a esquerda, tornando tudo um paradoxo. Concluo dizendo que, no fim das contas, não possuímos referências bem sucedidas de direita. Todos estão foragidos em outros países, seja Olavo, seja Julio, seja qualquer brasileiro que tenha vontade de crescer. Ninguém gostaria de fugir de sua própria casa. Todo brasileiro, em qualquer lugar, quer crescer. Ele só deve escolher se o Estado deve impor os limites ou não (enquanto ainda pode, é claro).


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[1] Enciclopédia Britânica BARSA, versão de 1967.
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Sobre Paulo Matheus

Esposo da Daniele, pai da Sophia, engenheiro, gremista e cristão. Seja bem vindo ao blog, comente e contribua!

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