SER ADOLESCENTE



Por: Kamylla Onerosa
Ser adolescente é muito difícil sabe? Minha mãe não entende, mas passamos por muitas dificuldades. Outro dia eu estava na escola com minhas amigas do Whatsapp, que por coincidência também são colegas do colégio, e percebi que não tinha roupas roxas. Senti-me um lixo. Chorei um pouco no banheiro antes de ir pra aula. Tirei uma foto no espelho e coloquei no Facebook com a seguinte frase: “A vida nem sempre é um mar de rosas”. Ao chegar a casa, minha mãe me pergunta: “Como foi, querida?”. Sim, como se ela se importasse comigo. Prefere trabalhar 16 horas numa fábrica ao ter um tempo com a própria filha. Fui pro quarto direto. Estava cansada da vida. Dessa vida, pois no Twittereu estava melhor. Meu pai, como sempre, foi ao quarto para dizer a frase mais proferida desde meus 11 anos: “Estamos fazendo o melhor que podemos, filha”. “Não parece”, pensei. Quando vou ao shopping, sou a que menos posso gastar. Minha mãe ganha 800 reais e meu pai 900. O vestido roxo custa apenas 400. Ainda sobraria 1300 para o restante das despesas. “Como foi a escola?”. Ao menos sei calcular. Não é fácil, sabe. Sabe o que mais? Ainda tenho um irmãozinho de 8 anos. Meninos podem usar a mesma roupa todo o dia. Adivinhe: ele tem duas camisas, duas calças, duas cuecas e, pasme, dois pares de calçados. Isso me deixa ainda mais depressiva. Escuto músicas bem down sabe? Ah, e tem meu cabelo. Nunca consigo arrumar. Minha mãe deveria saber que cabelo de adolescente tem que ser tratado SEMPRE. Mas não. Ela usa a mesma desculpa sempre: “Mas filha, eu posso tentar arrumar... salão é caro”. Sim, minha mãe entende muito de beleza, ela nunca arrumou o próprio cabelo, nem na minha festa de 15 anos! Que vergonha! E ainda queria aparecer no meu Instagramdaquele jeito? Nem pensar. Mas a depressão não leva a nada. Acho que vou trabalhar. Vou mostrar para esses medíocres que sei me virar. Vou comprar minhas coisas e vou jogar na cara deles. Nunca se importaram comigo. Sei que não existem muitas vagas por ai, mas aceito qualquer coisa, mesmo que seja para esfregar o chão. Que ódio. Mas por outro lado, como vou manter minha pose de adolescente se esfregar o chão? Na verdade, vou estar parecendo adulta. Não é isso que queremos mundo! E além disso, adolescente não trabalha! Mamãe, eu te amo! Posso levar 400 reais pro shopping? É só dessa vez? Por favor? Que ódio! É sempre assim. Não é fácil ser adolescente, viu?
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Sobre Paulo Matheus

Esposo da Daniele, pai da Sophia, engenheiro, gremista e cristão. Seja bem vindo ao blog, comente e contribua!

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