O capitalismo não substitui o cristianismo


Talvez eu já tenha dito aqui de forma suficiente que o socialismo não deve ser incentivado, já que está provado teoricamente - Dostoiévski já tratava os socialistas como crianças inconsequentes antes que eles tomassem o poder - como também em sua prática plena - a lista de exemplos passa das dezenas de tragédias nacionais - que ele não ajuda as pessoas a terem responsabilidade por seus atos. Centralizar o poder, as decisões e o arbítrio em um só lugar fará com que todos, que possuem diferenças significativas de pensamentos, rumem unidos ao fracasso.

Os cristãos assimilam bem essa assertiva, já que, desconfiados de nossas próprias forças, destinamos toda a nossa vida a Deus, para que Ele seja o nosso arbítrio. Nossas ações devem ser pautadas pelo que Cristo faria em dada situação. Não há como dizer que Cristo era a favor, por exemplo, do governo em suas decisões, pois fora crucificado institucionalmente por ele, nem da inexistência do mesmo, pois também não era favorável a sonegação de impostos.

Dito isso, o combate aqui se diz respeito a um outro extremo, que, resumindo, surge do mesmo sentimento preguiçoso de não ter com o que se preocupar: o capitalismo é uma benção tão grandiosa que nos deixa isentos de qualquer atitude, pensamento ou arbítrio com o próximo. Se o capitalismo é o que de melhor funcionou até hoje, isso não significa que ele seja perfeito, ou que seja um produto direto do cristianismo. Isso é mentira. Além disso, ele ajudou a diminuir a pobreza extrema, na mesma proporção que serviu como ferramente para que ditaduras disfarçadas fossem potencializadas (a China, comunista internamente, só cresce graças ao capitalismo). Não há como negar que o capitalismo é benéfico em relação a outros meios, mas não devemos dizer que é um sistema perfeito, por vezes, idolatrado tanto quanto o próprio cristianismo.

O capitalismo pode ser a solução para a economia de um país, não um substituto do cristianismo.

Jesus multiplicou os pães e peixes num momento em que as pessoas tinham fome. Obviamente ele sabia que nem só de pão viverá o homem, mas que naquele momento eles precisavam comer, independente se mereciam teologicamente ou não. Jesus multiplicou não só os pães que inicialmente ele tomou - sobraram 7 cestos de apenas 7 pães iniciais - mas doou aquilo que era Dele, fruto do milagre. Se Ele, dono de toda a riqueza, doou uma parte singela, qual o mal nisso? Alguns cristãos conseguem notar.

Algumas pessoas, diferentes destas que apenas tinham fome, não podem trabalhar, seja por deficiência física ou intelectual (tal como o cego Bartimeu de Marcos 10). Quando dizemos que o governo tem de cuidar deles, há um perigo: nosso coração tenderá sempre a querer amparar cada vez mais gente, não apenas os que necessitam realmente de ajuda, mas também aqueles que precisariam apenas de oportunidades de crescer. Não é tarefa do governo, ao meu ver, já que isso só o faria crescer nessa ideia de 'bem estar social'. Logo, cabe a quem a caridade? Obviamente aos cristãos, independente de estarem atualmente fazendo ou não.

C. S. Lewis tem uma citação engraçada sobre dar dinheiro a alguém:
"Outra coisa que me irrita é quando as pessoas dizem 'por que você deu dinheiro para aquele homem? É bem provável que ele vá gastar tudo em bebida'. Minha resposta é 'mas se eu guardasse [o dinheiro], talvez eu o gastasse bebendo." (Cartas a uma senhora americana)

Com efeito, o simples fato de dar esmolas não é mau visto na Bíblia: "Em Jope havia uma discípula chamada Tabita, que em grego é Dorcas, que se dedicava a praticar boas obras e dar esmolas." (Atos 9:36). Muitas vezes somos hipócritas sobre esse tema. E, de novo: a mão invisível do mercado só funciona na economia, ela não é Espírito Santo em si. Nós somos os agentes, ainda que é de Deus que o bem venha: "Porque toda a casa é edificada por algum homem, mas o que edificou todas as coisas é Deus" (Hebreus 3:4). Além disso, esse extremo demoníaco pode tornar a pessoa insensata a ponto de tornar sua riqueza um tesouro maior que a salvação como ocorre em Marcos 10:21-22: "E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Uma coisa te falta; vai pelo teu caminho, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e tu terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me. Mas ele, entristecendo-se com o que foi dito, foi embora afligido; pois ele tinha grandes posses". Obviamente, o problema no jovem rico não era a riqueza em si, mas a dificuldade de se desfazer dela.

O maior benefício do capitalismo, e talvez de onde propriamente tenha surgido durante a Reforma Protestante, é a liberdade. Sem ela, não podemos escolher o que fazer, não podemos exigir que as coisa melhorem e, principalmente, não saberemos que é o homem, e não Deus, responsável pelo caos deste mundo. A liberdade é a nossa garantia de que, ao ver alguém que tinha a possibilidade e as ferramentas para crescer, e não aproveitou, não precisaremos dizer que a culpa é da sociedade, no caso de quando o governo falha. Entretanto, ela não serve apenas para nos isentar de culpa pelo mal, mas também para praticar o bem. Não creio que a caridade seja uma má virtude. O capitalismo não é a solução para nossos problemas morais, mas sim Cristo o é.

Ou seja: somos livres, o que significa concluir que não devemos julgar quem não faz caridades, de modo que não enxerguemos tal prática como vaidade, nem tão pouco demonizar essa atitude, sob pena de deixarmos a essência do cristianismo guardada nos livros de teologia.


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Sobre Paulo Matheus

Esposo da Daniele, pai da Sophia, engenheiro, gremista e cristão. Seja bem vindo ao blog, comente e contribua!

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