Apologética

Paulo, por Rembrandt (1657).
Talvez não haja um assunto tão importante e que para mim tenha um efeito tão edificante quanto a Apologética. Se você ler Atos 17, ficará abismado com a ousadia que Paulo teve diante dos epicuristas e estoicos. Quando nos lançamos ao mundo, nos colocando do lado cético e/ou ignorante ao que acreditamos, muitas vezes achamos que o cristianismo é uma religião ultrapassada, que se baseia em premissas insatisfatórias e, diante da infinidade de opções religiosas, se mostra apenas uma ideia dentre as demais interpretações sobre a vida. Mas, lá longe da Igreja, como C. S. Lewis bem nos fala, sofremos angustiantemente e isso nos faz lembrar do quão limitados somos e de tão poucas respostas sensatas possuímos para nossa brevidade nesta Terra, sendo o cristianismo ao meu ver a resposta mais racional aos nossos anseios, até mesmo aqueles que negamos ter.

Como diz Mateus 24: 35, "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão". Talvez a principal prova quanto as alegações de ateus e outras religiões modernas estejam neste versículo. Muitas religiões foram (religiões egípcias) e outras surgiram (islamismo), muitos impérios perseguiram os cristãos em diversas épocas (os romanos no princípio e os soviéticos mais recentemente). Não esquecendo que os cristãos foram perseguidos intelectualmente durante o Iluminismo, que procurou teorizar demais a fé, e atualmente durante a revolução tecnológica, que nos satisfaz como se esse minúsculo tempo em que vivemos pareça eterno. Ainda assim, a Palavra nunca deixou de ser relevante em todos os campos, sendo que todos aqueles cristãos que estavam por detrás de uma mudança que revolucionou algo para a sociedade (quer sejam cientistas pioneiros ou importantes contribuintes aos preceitos de direito, política e literário) tinham a Bíblia como parâmetro.

O versículo mais utilizado como motor para o apologista possivelmente seja 1 Pedro 3: 15: "Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês". A resposta racional da nossa fé pode ser encontrada com um estudo profundo das Escrituras, o que talvez tenha relação a própria ruína do povo quando a deixa de lado (cf. Oseias 4: 6).

Apesar de toda a ênfase dada por Paulo em seu ministério, acho difícil justificar a pena de morte para hereges, por exemplo. Um herege, pela definição simplória, é alguém que discorda de um certo dogma, não na sua totalidade, mas distorce uma crença fundamental ou cria para si uma interpretação absurda. Uma pessoa que pratica tal absurdo tem objetivos diversos, mas reservo os dois principais: na antiguidade, quando Estado e Igreja eram apenas um poder, a heresia destruiria tudo (Agostinho parece ter defendido a pena de morte nessa circunstância). No atual momento, já não coexistindo sob o mesmo poder - uma herança da Reforma Protestante - apenas para destruir um sistema de crenças qualquer (parece que acabei de descrever o fundamento de um marxista). Logo, ainda que um herege atual venha com absurdos individuais para invalidar o Cristianismo, provavelmente ele irá aparecer tanto quanto Dan Brown, mas ainda assim nada justificaria a pena de morte. O fato mais emblemático quanto a esse assunto é a história de Sebastian Castellio (1515-1563). Fugindo da Inquisição francesa, que punia de forma capital os hereges, conseguiu um cargo de reitor na Genebra de Calvino, onde viu a mesma punição sendo aplicada aos hereges. Segundo Voltaire, a expulsão de Castellio de Genebra por Calvino por sua tolerância e sua morte na pobreza é devido à sua excelente erudição, possivelmente superior ao de Calvino. É dele a frase: "Matar um homem não significa proteger uma doutrina, significa matar um homem." [1]

Pois bem, alguns ditos apologistas podem cair no erro de achar que a Apologética é um combate frenético contra seitas heréticas cristãs. Esses mesmos parecem pensar que vivemos na época da Igreja-Estado, e que todos vivemos sob o cristianismo obrigatório, ou seja, que não há ateus, indiferentes ou outras religiões, tal como os fariseus faziam com Cristo - para eles, Jesus é que era herege. Entretanto, não havendo a pena de morte, ofensa neles!

Não parece que Paulo desejava que Nero tornasse o cristianismo a religião oficial do Estado para que pudesse queimar na fogueira os estoicos, para que deixassem de ser estoicos. Afinal, Paulo deixou de ser um perseguidor e passou a ser perseguido, não o contrário. Paulo tinha não apenas a convicção no coração de Jesus era Deus e que precisava ser pregado a todos, fosse Judeu, Gentio, Estoico, mas também que precisava argumentar sobre sua fé, sobre ser como Cristo. Sua atuação sem dúvida fez o cristianismo crescer nos primeiros anos. Diferente de todos os movimentos que reprimiam com morte os hereges, as bruxas, etc., que declinaram profundamente.

A apologética de Atos 17 é essencialmente contra os pagãos. Deve-se combater, entretanto, as heresias de seitas cristãs também. Contudo, dificilmente combateremos o pecado atirando pedras, já que todos somos de alguma forma pecadores, independente do grau. Se cremos que o Espírito Santo nos convencerá de nossos pecados, as palavras que dizemos já devem ser suficientes.

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Notas:
[1] Hominem ocident non non doutrin tueri sed hominem ocidere.

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Sobre Paulo Matheus

Esposo da Daniele, pai da Sophia, engenheiro, gremista e cristão. Seja bem vindo ao blog, comente e contribua!

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