Resenha ~ Os Demônios, Dostoiévski

Demorei alguns dias até escrever uma resenha sobre "Os Demônios", de Fiódor Dostoiévski, após o término da leitura, se é que poderia fazer algo melhor do que já existe por aí. Aliás, antes mesmo de ler, fui pesquisar alguma informação preliminar para talvez evitar perder tempo em um livro de 700 páginas (o que achava não fazer sentido, já que havia gostado imensamente de Os Irmãos Karamázov, de cerca de 1000 páginas).

Tudo o que eu sabia é que esse livro era chamado de profético, mas tudo indicava que se tratava de profecias políticas. Em uma pesquisa na internet, curiosamente, encontrei uma observação à edição a qual estava lendo (de Paulo Bezerra, pela editora 34). Era uma crítica de Olavo de Carvalho, que colocava sob suspeição tal tradução, visto que Paulo Bezerra atuara no chamado "partidão" (Partido Comunista Brasileiro), tendo inclusive estudado e vivido muito tempo na URSS. Bem, se levarmos em conta o passado de ambos, eu entraria em parafuso já que o próprio Olavo fora um militante. Decidi não me apegar tanto na tradução, que se vangloria de ser a única diretamente do russo (mas confesso que ficava com certo receio em alguns trechos, principalmente após o posfácio do tradutor). Inclusive baixei a versão russa, Besy, para comparar alguns trechos, a não ser por alguns termos estranhos, acredito que a tradução não interfere na mensagem:

  • Ele traduziu Э-эхъ (E-ekh"), que possuiria tradução para o português "Ehh" (ou simplesmente "é", como se é lido no russo), como "Eta Ferro"...
  • Econtrei alguns "Bah's", mas estão na versão inglesa de Constance Garnett também, apesar dela estar na lista dos que traduziram como "Os Possessos". E não apenas nas expressões em francês, onde se vê muitas vezes com a tradução "Bem".

Enfim, iniciado a leitura, e que admito, demorei um bocado, parecia que nada transformaria o livro em algo diferente do que estava ali nas primeiras duzentas páginas: uma sociedade aristocrática russa preocupada com a disseminação de ideias progressistas europeias (seja lá o que seria essas idéias), talvez um tanto ridicularizado por Dostoiévski por conta de sua defesa nacionalista da cultura russa. Em menor escala, por vezes, aparecem algumas situações engraçadas no enredo, que normalmente ele faz uso para ridicularizar uma crença ou (neste caso) a falta de uma:
A primeira palavra que o outro lhe disse: "Quer dizer que o senhor é general, se fala dessa maneira!", ou seja, no sentido de que ele não podia encontrar uma ofensa pior do que a palavra "general". Ivan Ivánovitch ficou no auge da irritação: "Sim, senhor, eu sou general, e general-tenente, e servi ao meu soberano; já tu, senhor, és um menino e ateu!".
Como disse, eu tinha uma preocupação com relação aos trechos que poderiam estar diferentes do original, mas, conferindo com a tradução de Garnett para o inglês e - com toda a minha limitação, é claro - do original russo, percebi, afinal, que a sutileza do autor em relação ao escárnio do socialismo, visto como a solução para a Rússia por aqueles aristocratas, era uma forma de apontar o quão ruinoso foi para a geração seguinte, o que de fato já mostrava sinais contemporâneos no tempo de Dostoiévski.

O tema motivacional do autor ao escrever o livro é retratar, com fundo e tudo, o assassinato de um jovem niilista (tal como realmente aconteceu com Ivanov, a mando de Sergey Nechayev, na Rússia do século XIX) que, desistindo da ideia absurda do ateísmo socialista, se transforma em uma ameaça para o grupo revolucionário do qual faz parte. A banalização dessa morte é apenas um começo de diversas atrocidades a serem cometidas por estes demônios, numa feliz referência feita por Dostoiévski com a passagem de Lucas, onde Jesus expulsa demônios de um homem e eles entram no corpo de porcos, e eles acabam se atirando de um penhasco, já que a geração aristocrata, representada principalmente pelo intelectual Stiepan Trofímovitch, expulsou de si a ideia fracassada do socialismo sem esquecer que a geração seguinte (seu filho e seu pupilo) iria tentar pôr em prática, quer pelo bem ou pelo mal.

Para um leitor limitado como eu, seria arrogância ditar com exatidão as referências ideológicas de cada personagem (talvez as proféticas sejam mais aceitáveis), mas me atrevo: Piotr Stepanovich, o filho de Stiepan, talvez pela falta de afeto do pai erudito, desenvolveu um intelecto insuperável em vilania, talvez sendo o "demônio principal" (ou o mais radical deles). É ele que, liderando outros comandados, pelejará pela prática do socialismo, que não terá outro meio de ser implantado se não à força. Durante a história, ele será um dos incentivadores dos tais folhetos que espalharão informações de como as coisas devem ser, para horror do governador da província Von Lembke, por exemplo, que debate com Piotr um ponto específico: a destruição de igrejas. O poema "Bela Alma", que é espalhado pela cidade fictícia, proclama a eliminação do czarismo, da igreja, da família, da tradição. Todos os textos que li sobre Piotr Stepanovich são unânimes em afirmar que ele é a personificação de Stalin, o demônio georgiano, e a ideia de eliminar o czarismo e a religião cristã foi um plano de fato dos soviéticos.

Por outro lado, um personagem admirado por Piotr, talvez pela devassidão moral e ateísmo prático, é Nikolai Stavrogin. Filho de Varvara Petrovna, amiga rica e mantenedora do intelectual Stiepan, Stavrogin é uma figura constante quando o assunto é lascívia e ausência de preocupação moral, tanto que, no desenrolar da história, é o autor intelectual da morte da esposa para ficar com outra (Lizavieta Nikolaekva, que inclusive é casada), além de ter engravidado outra mulher (Marie) e a ter abandonado, motivo pelo qual, em uma reunião improvável no início, ele leva um soco de Chátov. Eis aquele que será morto ali adiante, no ápice do enredo, aquele que desistiu das ideias absurdas, que é um dos que se salvam moralmente, apesar de não conseguir se salvar afinal. Antes de sua morte por Piotr, juntamente com os outros membros do grupo, Chátov ainda tem tempo de fazer o parto de sua ex-mulher Marie, tendo um momento feliz ao contemplar a criança que sequer é sua. Alguns afirmam que a voz de Dostoiévski está neste personagem. Esta morte, planejada e executada pelo próprio Piotr, será de inteira responsabilidade do engenheiro Kirilov. Como assim? Bem, Kirilov é outro ponto dentro do enredo, que fará de seu suicídio voluntário uma resposta a si e aos outros de que ele próprio se tornara um deus, antecipando aí as ideias niilistas de Ivan Karamázov, quero dizer, Nietzsche. Há de se citar também Chigalióv, a quem alguns comparam suas ideias escritas em um livro às loucuras doentias de Hitler, como um sistematizador das ideias do darwinismo social. Há um debate, entretanto, sobre a quantidade de "cabeças que devem ser cortadas" para que o paraíso socialista na terra seja estabelecido:
"Minha conclusão", diz ele, "está em contradição direta com a ideia da qual comecei. Procedendo de liberdade ilimitada, termino com despotismo ilimitado". Noventa por cento da sociedade deve ser escravizado aos dez por cento restantes. A igualdade do rebanho deve ser aplicada pelas táticas da polícia, pelo terrorismo e pela destruição da vida intelectual, artística e cultural. Estima-se que cerca de cem milhões de pessoas precisarão ser mortas no caminho para a meta.
Liputin, um dos membros do grupo revolucionário, acha difícil que isso seja possível, especialmente na Rússia (O Livro Negro do Comunismo provaria o contrário). Enquanto uma série de mortes, destruições e desenrolar da própria perplexidade que a pequena cidade experimenta, Stiepan Trofímovitch, já certo da loucura da qual ele próprio praticamente havia criado, vai cada vez mais enlouquecendo, tendo demonstrado interesse em divulgar o Evangelho no final da vida. É dele algumas reflexões incríveis durante vários momentos:
Porque tenho notado - murmurou-me Stiepan Trofímovitch naquela ocasião - que todos esses socialistas e comunistas desesperados são ao mesmo tempo incríveis unhas de fome, compradores, proprietários, e a coisa chega a tal ponto que quanto mais socialistas, quanto mais avançados, mais intensa é a sua postura de proprietários...
Ora, sabem os senhores, sabem que sem o inglês a humanidade ainda pode viver, sem a Alemanha pode, sem o homem russo é possível demais, sem a ciência pode, sem o pão pode, só não pode sem a beleza, porque nada restaria a fazer no mundo.
Há muitos outros desenlaces possíveis para o final, mas creio que o fato de ser tão sombrio tenha como principal objetivo o impacto do leitor: Stravrogin é encontrado por sua mãe enforcado em um mosteiro, talvez (isso já contando com o capítulo final censurado) por ter refletido, após fazer com que uma menina se enforcasse e ter de lidar com aparições dela posteriormente, que a culpa disto e das demais maldades que praticara eram culpa de sua própria liberdade. Não há um final feliz, o que torna o livro digno de uma reflexão continua. Ao meu ver não apenas política.

Dostoiévski ao lado de Marx: paradoxo ou delírio?
As conclusões de outros são diversas e depende muitas vezes de crenças pré-concebidas. Aos socialistas, o romance é uma obra contra o extremismo - o que é uma besteira, já que parecem esquecer que as "lindas" ideias que influenciaram os demônios são socialistas. O próprios russos, sabendo dessa crítica ao socialismo, dizem que Dostoiévski é "exagerado". Muitas resenhas tentam descrever a história como complexa - pelo que percebo, são de pessoas que leem a história, sem entender quem é Dostoiévski e em qual cenário ele está inserido. Paulo Bezerra, o tradutor, disse que o livro que traduziu se trata de extremismos, para poder enquadrar até mesmo George Bush como um demônio contemporâneo por seu radicalismo, sem se esquecer também que Dostoiévski fizera parte de um grupo revolucionário socialista no passado, ou seja, livrou a culpa da ideia e a colocou em seus praticantes (ai fica claro que muitas vezes a tradução é importante, já a opinião do tradutor nem tanto). Além de outros absurdos. Mas não existem apenas resenhas rasas. Há resenhas bem boas tambémEm outras épocas, seria mais plausível dizer que se o livro trata de uma crítica a fracassada Internacional Socialista, organização da qual os demônios fazem parte, e que até hoje existe! ("Os demônios são as ideias de posse deles que os transformaram em autômatos"). A descrição da Britannica parece a mais sensata: "Os Demônios é um trabalho profundamente conservador e cristão". E, para mim, Carpeuax não só entendia o autor e a obra, como o descreveu perfeitamente:
Em "Os Demônios", o liberal Stiepan Verkhovenski é o pai do socialista Piotr e o preceptor do niilista Stavrogin. O liberalismo começou a libertar a humanidade da sua base religiosa. Para o pai Verkhovenski a Madona Sistina é um ideal estético; para seu filho, um fetiche desprezível. O socialismo, para Dostoiévski, é apenas a propagação do egoísmo burguês entre os proletários. O eu, na sua superficialidade, permanece odioso, e tem necessidade da conversão e da fraternidade cristã. Mas o grande psicólogo desce até os mais profundos recantos da alma, onde o homem se torna consciente da sua dependência de Deus. 
Minha maior conclusão ao livro, o que o torna universal, seria que todo o horror daquele período (e não apenas dele, como saberíamos pelos soviéticos) é proveniente da prática do ateísmo socialista, com o resultado fracassado sendo o suicídio. A vida é um absurdo, mas em vez de olharmos isso como uma forma de crermos no transcendente, alguns acabam optando pela total falta de sentido, ou, o niilismo. Dostoiévski parece ter sido menos enfático aqui com os bons, mas descrevendo com detalhes impressionantes os maus. Todavia, se os maus espalhavam panfletos de ódio às instituições como a Igreja, o autor também proclama seu panfleto - O Evangelho - contra os demônios. E o faz muito bem.


Paulo Matheus

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Sobre Paulo Matheus

Esposo da Daniele, pai da Sophia, engenheiro, gremista e cristão. Seja bem vindo ao blog, comente e contribua!

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