Fatalismo e a Lógica

O fatalismo afirma que, se um evento futuro tiver que acontecer, ele necessariamente acontecerá. Logo, não é apenas verdade que um evento e do futuro acontecerá, mas que é impossível que o seu oposto (¬e) ocorra. Será que isso é verdade? Ao ler o artigo "Fatalism and the Future" do Craig Bourne no "The Oxford Handbook of Philosophy of Time", vi ali uma forma bem simples de rejeitar o fatalismo, utilizando lógica modal. Entretanto, é preciso observar cuidadosamente o que cada fórmula propõe e seguir a argumentação passo a passo.

Para iniciar, é importante propor o universo semântico da lógica que aqui utilizaremos. Considere os seguintes operadores lógicos:

p = p é o caso, onde p é uma proposição qualquer sobre o mundo;
⊃ =  se... então (implicação);
□ = é necessário que (necessidade);
¬ = não é o caso que (negação);
∧ = e (conjunção);
∨ = ou (disjunção)
∴ = conclusão.

Agora que temos nosso "dicionário" de operadores lógicos básicos, considere, por exemplo, uma proposição "c" qualquer. Digamos que c = chove. Sendo assim, infinitas proposições comuns podem ser criadas a partir desses operadores. Tais como:

¬ c = não chove.
c ∨ ¬ c = chove ou não chove.
c ⊃ ¬ s = se chove então não está ensolarado (onde s = está ensolarado)
etc

Tome agora a lei de não contradição:

¬ (A ∧ ¬A)

A partir dessa lei (que parece bem óbvia), é impossível que duas coisas contraditórias entre si subsistirem ao mesmo instante e sob o mesmo aspecto. Logo, é evidente que um evento e seu oposto (isto é, o evento não que ocorre) não podem existirem simultaneamente. Portanto, a fórmula a seguir é contraditória e impossível:

c ∧ ¬ c

Devemos entender que é impossível que as proposições que afirmam que chove e que não chove são, sob mesmo instante e aspecto, verdadeiras. Uma delas apenas deve ser verdadeira e a outra, consequentemente, falsa.

Nesse sentido, podemos também afirmar que é necessário que amanhã, ou choverá ou não choverá, ainda que não saibamos qual dos dois acontecerá. Considere a proposição sobre o futuro de que choverá amanhã como Ac. Logo,

Ac = choverá amanhã

E a proposição correspondente ao oposto de choverá amanhã é obviamente ¬ Ac.

O que temos, assim como colocou Aristóteles, fica assim: é necessário que a disjunção sobre o evento futuro é verdadeiro; mas é falso que um deles acontecerá necessariamente. Ora, é fácil saber que, necessariamente, ou choverá amanhã ou não choverá amanhã, do qual utilizamos a fórmula lógica:

□(Ac ∨ ¬ Ac)

Alguém diria que, se é verdade que choverá amanhã, então segue-se necessariamente que choverá amanhã. Mas não é possível derivar (Ac ⊃ □Ac) a partir de □(Ac ⊃ Ac). O que nós temos é apenas a disjunção de que é necessário que um ou outro aconteça, mas não de que aquele que acontecerá, necessariamente acontecerá.

Talvez também pudesse ser dito que, se existe um ser onisciente, ele saberá o valor da proposição sobre o futuro e, portanto, segue-se necessariamente que tal proposição será o caso. Considere que a proposição choverá amanhã é verdadeira e, de fato, choverá. Logo, a fórmula de é verdade que choverá amanhã é representada por v(Ac) e seu oposto por f(Ac).

Mas não se segue que por tal ser onisciente (Deus) possuir conhecimento sobre o futuro, que ele determina o futuro fatalisticamente, sobretudo em relação à ações de seres possuidores de liberdade libertária. Eis então como rejeitar esses valores como necessários:

1. v(Ac) ⊃ □Ac
2. ¬□Ac
3. ∴ ¬v(Ac)

e

1. f(Ac) ⊃ □¬Ac
2. ¬□¬ Ac
3. ∴ ¬ f(Ac)

Portanto, ¬[v(Ac) ∨ f(Ac)]. Isto é, não é o caso que, ou é verdade que choverá amanhã ou é falso que choverá amanhã.

Ora, também não é necessário que Deus cause o futuro muito antes de este chegar. Se Deus é sustentador do universo como os teístas costumam dizer, ele pode causar um evento no presente do futuro de tal evento de acordo com sua própria vontade perfeitamente livre, no lugar de "causar" num tempo t1 tal evento que ele quer que aconteça no tempo t5. Acredito ser totalmente possível Deus "esperar" o instante t5 chegar para então causar uma chuva, se é que em t5 ele vê como razoável que deve chover. Nesse sentido, podemos tanto rejeitar o fatalismo sobre eventos futuros quanto argumentar que Deus não é "escravo" do futuro, como costumam objetar alguns ateus.

Mas é claro que não estou dizendo que o argumento acima é perfeitamente verdadeiro. Mas ele pelo menos me parece ser verdadeiro e suficiente para os seus propósitos.

Por: Alisson Henrique de Souza

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Sobre Paulo Matheus

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