Sobre a palavra Fé



Fé não significa meramente conhecer a história de Cristo, pois até os demônios confessam que o Filho de Deus apareceu e ressuscitou dentre os mortos, e em Judas havia um conhecimento de Cristo. A verdadeira fé é de fato reter todas as palavras que Deus nos deu, incluindo a promessa da graça; é uma confiança sincera no Salvador Cristo, uma confiança de que Deus, por amor de seu Filho, perdoa graciosamente nossos pecados, nos recebe e nos torna herdeiros da bênção eterna. Romanos 4 mostra claramente que esse é o significado da palavra "fé" quando dizemos: "Pela fé somos justificados".

A promessa deve ser recebida com fé e, portanto, a fé é uma confiança no Salvador, Cristo. Quem não recebe a promessa não acredita em toda a palavra de Deus. Judas não acredita que Deus o perdoará por seus pecados, mas Davi e Pedro acreditam não apenas na história, mandamentos e perigos, mas também na promessa de graça. Não estou criando uma nova visão ao dizer isso. "Eu acredito no perdão dos pecados" significa mais do que simplesmente acreditar que os pecados são perdoados aos outros; significa, meus pecados são perdoados. Não acreditar nisso é acreditar apenas na história externa. O símbolo inclui não apenas a história, mas também as promessas e os frutos da promessa. Obviamente, quando Paulo diz: "Visto que somos justificados pela fé, temos paz com Deus" [Romanos 5: 1], ele fala de uma fé que traz conforto e paz ao coração. Essa paz não é apenas conhecimento, pois os demônios também conhecem, e os faz tremer e fugir de Cristo; eles estão certos de que Deus os castigará. Essa fé, que recebe a promessa, diz que Deus quer perdoar nossos pecados por causa do Senhor Cristo. 

É uma confiança no Senhor Cristo e afeta a paz, como todos os verdadeiros cristãos sabem. Não é falso dizer que o próprio Senhor Cristo afeta essa paz, ou que o Espírito Santo faz. Deus está presente neste conforto. Ele é ativo, no entanto, através da palavra externa, e inflama no coração. Mas estas são todas juntas a palavra externa, contemplação das palavras externas em nós, e o Filho de Deus, que trabalha através da palavra externa, manifesta o Pai eterno, fala consolo ao coração e dá o Espírito Santo, que produz amor e alegria em Deus.

Quando alguém diz: "Pela fé temos perdão dos pecados e somos justificados", isso não significa que tenhamos perdão por causa dessa obra que se chama fé; mas por causa do Senhor Cristo, em cuja obediência e mérito a confiança se baseia. A fé é o meio pelo qual contemplamos o Senhor Cristo e pelo qual aplicamos e apropriamos seu mérito em nós mesmos.

Para evitar interpretações errôneas, comuns em nossas igrejas, quando alguém diz: "Pela fé, temos perdão e somos justificados, isto é, agradáveis ​​a Deus", deve ser entendido de forma correlata, ou seja, por causa do Senhor Cristo, não obras, ou seja, fé, seja o mérito.

E o poder de revitalizar, pacificar e confortar o coração não é o poder da fé, mas do próprio Cristo, que pela fé trabalha, conforta e dá Seu Espírito Santo no coração. Mas Cristo quer trabalhar através do evangelho e da fé, e não de outra maneira.

Que isso seja lembrado, que existe uma distinção entre o significado da justificação mundana e essa justificação que é dada por meio do evangelho, como explicaremos mais adiante com relação à palavra "justificação". A justificação mundana pertence a esses propósitos e trabalha de acordo com eles, que morrem com os homens; mas o conforto que o Senhor Cristo exerce nos crentes é a vida, e permanece, como está escrito em Romanos 8: 10: "Seu espírito está vivo por causa da justiça". Com essas informações, podemos responder aos argumentos dos papistas, anabatistas e seguidores de Osiander.

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Por: Philipp Melanchthon
Extraído de: Loci Comunnes
Ano: 1555

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Sobre Paulo Matheus

Esposo da Daniele, pai da Sophia, engenheiro, gremista e cristão. Seja bem vindo ao blog, comente e contribua!

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