Caridade



Agora permanece fé, esperança, caridade, esses três; mas o maior deles é a caridade." - 1 Coríntios 13. 13.


A caridade é justamente chamada de "a rainha das graças cristãs". "O fim do mandamento", diz São Paulo, "é caridade" (1 Timóteo 1. 5). É uma graça que todas as pessoas professam admirar. Parece uma coisa prática que todos podem entender. Não é nenhum desses "pontos doutrinários problemáticos" sobre os quais os cristãos discordam. Suspeito que milhares não teriam vergonha de lhe dizer que nada sabiam sobre justificação ou regeneração, sobre a obra de Cristo ou do Espírito Santo. Creio que ninguém gostaria de dizer que ele não sabia nada sobre "caridade!" Se os homens não possuem mais nada na religião, sempre se lisonjeiam por possuir "caridade".

Alguns pensamentos claros sobre caridade podem não ser inúteis. Existem noções falsas no exterior a respeito que precisam ser dissipadas. Existem erros que precisam ser corrigidos. Na minha admiração pela caridade, não me rendo a ninguém. Mas tenho coragem de dizer que, em muitas mentes, todo o assunto parece completamente incompreendido.

I. Deixe-me mostrar, primeiramente, o lugar que a Bíblia dá à caridade.

II. Em segundo lugar, deixe-me mostrar o que realmente é a caridade da Bíblia.

III. Deixe-me mostrar, em terceiro lugar, de onde vem a verdadeira caridade.

IV Por fim, deixe-me mostrar por que a caridade é "a maior" das graças.

Peço a melhor atenção dos meus leitores para o assunto. O desejo e a oração de meu coração a Deus é que o crescimento da caridade seja promovido neste mundo carregado de pecado. Em nada a condição decaída do homem se mostra tão fortemente como na escassez de caridade cristã. Há pouca fé na terra, pouca esperança, pouco conhecimento das coisas divinas. Afinal, nada é tão escasso quanto a verdadeira caridade.


I. Deixe-me mostrar o lugar que a Bíblia dá à caridade.

Começo com esse ponto para estabelecer a imensa importância prática deste assunto. Não esqueço que há muitos cristãos de alto nível nos dias de hoje, que quase se recusam a considerar qualquer coisa prática no cristianismo. Eles só podem falar de duas ou três doutrinas favoritas. Agora, quero lembrar aos meus leitores que a Bíblia contém muito sobre prática e doutrina, e que uma coisa a que ela atribui grande peso é "caridade".


Dirijo-me ao Novo Testamento e peço aos homens que observem o que diz sobre caridade. Em todas as pesquisas religiosas, não há nada como deixar a Escritura falar por si mesma. Não há maneira mais certa de descobrir a verdade do que a velha maneira de se voltar para textos simples. Os textos eram armas de nosso Senhor, tanto para responder a Satanás quanto para discutir com os judeus. Os textos são os guias aos quais nunca devemos nos envergonhar nos dias atuais. "O que diz a Escritura? O que está escrito? Como você está lendo?"

Vamos ouvir o que São Paulo diz aos coríntios: "Embora eu fale com as línguas dos homens e dos anjos, não tendo caridade, torno-me como o som do bronze, ou como um címbalo retumbante. E embora eu tenha o dom de profecia, e compreenda todos os mistérios e todo conhecimento; e embora eu tenha toda a fé, que possa até mesmo remover montanhas, e não tiver caridade, não sou nada. E embora eu conceda todos os meus bens para alimentar os pobres, e embora eu dê meu corpo para ser queimado, e não tiver caridade, isso não me serve de nada" (1 Coríntios 13. 1–3, KJL adaptado).

Vamos ouvir o que São Paulo diz aos colossenses: "Acima de tudo, coloque-se na caridade, que é o vínculo da perfeição" (Colossenses 3. 14).

Vamos ouvir o que São Paulo diz a Timóteo: "O fim do mandamento é a caridade de coração puro, de boa consciência e de fé não fingida" (1 Timóteo 1. 5).

Vamos ouvir o que São Pedro diz: "Acima de tudo, há uma caridade fervorosa entre vós; porque a caridade cobrirá a multidão de pecados" (1 Pedro 4. 8).

Vamos ouvir o que o próprio Senhor Jesus Cristo diz sobre esse amor, que é apenas outro nome para caridade [1]. "Um novo mandamento vos dou: que vos ameis; como eu vos amei, que também vos amemos. Nisto todos saberão que sois meus discípulos, se amais uns aos outros" (João 13. 34, 35). Acima de tudo, vamos ler o relato de nosso Senhor sobre o último julgamento, e assinalar que a falta de amor condenará milhões (Mateus 25. 41, 42).

Vamos ouvir o que São Paulo diz aos romanos: "Ninguém deva nada, senão amar um ao outro; pois quem ama outro cumpriu a lei" (Romanos 13. 8).

Vamos ouvir o que São Paulo diz aos efésios: "Andem no amor, como Cristo também nos amou" (Efésios 5. 2).

Vamos ouvir o que São João diz: "Amados, amemo-nos: porque o amor é de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; pois Deus é amor" (1 João 4. 7, 8).

Não farei comentários sobre esses textos. Eu acho melhor colocá-los diante dos meus leitores em sua simplicidade nua e deixá-los falar por si. Se alguém estiver disposto a considerar o assunto deste artigo de leve importância, pedirei apenas que examine esses textos e pense novamente. Aquele que retira a "caridade" do alto e santo lugar que ela ocupa na Bíblia, e a trata como questão de momento secundário, deve estabelecer sua conta com a Palavra de Deus. Certamente não vou perder tempo discutindo com ele.

Na minha opinião, a evidência desses textos parece clara, simples e incontestável. Eles mostram a imensa importância da caridade, como uma das "coisas que acompanham a salvação". Eles provam que tem o direito de exigir a atenção séria de todos os que se chamam cristãos, e que aqueles que desprezam o assunto estão apenas expondo sua própria ignorância das Escrituras.


II. Em segundo lugar, deixe-me mostrar o que realmente é a caridade da Bíblia.

Penso que é de grande importância ter opiniões claras sobre este ponto. É precisamente aqui que começam os erros sobre a caridade. Milhares se iludem com a ideia de que eles têm "caridade", quando não têm, por pura ignorância das Escrituras. A caridade deles não é a caridade descrita na Bíblia.

(a) A caridade da Bíblia não consiste em dar aos pobres. É uma ilusão comum supor que sim. No entanto, São Paulo nos diz claramente que um homem pode "dar todos os seus bens para alimentar os pobres" (1 Coríntios 13. 3), e não ter caridade. Que um homem de caridade "se lembre dos pobres", não há dúvida (Gálatas 2. 10). Que ele fará tudo o que puder para ajudá-los, aliviá-los e aliviar seus encargos, eu não nego por um momento. Tudo o que digo é que isso não compõe "caridade". É fácil gastar uma fortuna em doar dinheiro, e sopa, e vinho, e pão, e carvões, cobertores e roupas, e ainda estar totalmente destituído de caridade bíblica.

(b) A caridade da Bíblia não consiste em nunca desaprovar a conduta de ninguém. Aqui está outra ilusão muito comum! Milhares se orgulham de nunca condenar os outros, ou chamá-los de errados, o que quer que possam fazer. Eles convertem o preceito de nosso Senhor, "não julgue", em uma desculpa para não ter opinião desfavorável a ninguém. Eles pervertem Sua proibição de julgamentos precipitados e censuradores, em uma proibição de todo julgamento que seja. Seu vizinho pode ser um bêbado, um mentiroso, um violador do dia do Senhor, um homem apaixonado. Não faz mal! "Não é caridade", dizem eles, "declará-lo como errado". Você deve acreditar que ele tem um bom coração no fundo! Infelizmente, essa ideia de caridade é muito comum. Isto está repleto de prejuízos. Lançar um véu sobre o pecado e recusar-se a chamar as coisas pelos seus nomes corretos - falar de "corações" serem bons, quando "vidas" são completamente erradas - fechar os olhos contra a maldade e dizer coisas suaves de imoralidade -, isso não é caridade bíblica.

(c) A caridade da Bíblia não consiste em nunca desaprovar as opiniões religiosas de ninguém. Aqui está outra ilusão mais séria e crescente. Muitos se orgulham de nunca pronunciarem os outros como equivocados, quaisquer que sejam os pontos de vista que possam ter. Seu vizinho, por exemplo, pode ser um ariano, ou um sociniano, um católico romano, ou um mormonita, um deísta ou cético, um mero formalista ou um antinomiano completo. Mas a "caridade" de muitos diz que você não tem o direito de pensar que Ele está errado! Se ele é sincero, é "caridoso" pensar desfavoravelmente em sua condição espiritual! - A partir dessa caridade, jamais serei libertado! Nesse ritmo, os apóstolos estavam errados ao pregar aos gentios! A este ritmo, não há utilidade em fazer missões! Nesse ritmo, é melhor fecharmos nossas Bíblias e fecharmos nossas igrejas! Todo mundo está certo, e ninguém está errado! Todo mundo está indo para o céu, e ninguém está indo para o inferno! Tal caridade é uma caricatura monstruosa. Dizer que todos estão igualmente certos em suas opiniões, embora suas opiniões se contradigam categoricamente, - dizer que todos estão igualmente no caminho para o céu, embora seus sentimentos doutrinários sejam tão opostos quanto preto e branco - isso não é caridade bíblica. Caridade como essa derrama desprezo na Bíblia e fala como se Deus não tivesse nos dado uma prova escrita da verdade. Caridade como essa confunde todas as nossas noções do céu, e a preencheria com uma multidão discordante e desarmônica. A verdadeira caridade não pensa que todos estão certos na doutrina. A verdadeira caridade clama: "Não acredite em todos os espíritos, mas julgue se realmente os espíritos são de Deus: porque muitos falsos profetas se foram ao mundo", "Se alguém vier a você e não trouxer essa doutrina, não o receba" (1 João 4. 1; 2 João 10).

Deixo aqui o lado negativo da questão. Eu me demorei bastante nisso por causa dos dias em que vivemos e das noções estranhas que abundam. Deixe-me agora voltar para o lado positivo. Tendo mostrado o que não é caridade, deixe-me mostrar agora o que é.

A caridade é aquele "amor" que São Paulo coloca primeiro entre os frutos que o Espírito faz surgir no coração de um crente. "O fruto do Espírito é amor" (Gálatas 5. 2). O amor a Deus, como Adão tinha antes da queda, é sua primeira característica. Aquele que tem caridade, deseja amar a Deus com coração, alma e mente, e força. O amor ao homem é sua segunda característica. Quem tem caridade, deseja amar o próximo como a si mesmo. Esta é realmente a visão em que a palavra "caridade" nas Escrituras é mais especialmente considerada. Quando falo de um crente tendo "amor" em seu coração, quero dizer que ele tem amor a Deus e ao homem. Quando falo de um crente tendo "caridade", quero dizer mais particularmente que ele tem amor pelo homem.

A caridade da Bíblia se mostrará nos feitos de um crente. Isso o deixará pronto para realizar atos bondosos com todos ao seu alcance - tanto com seus corpos quanto com suas almas. Não permitirá que ele se contente com palavras suaves e desejos gentis. Isso o fará diligente ao fazer tudo o que estiver ao seu alcance para diminuir a tristeza e aumentar a felicidade dos outros. Como seu Mestre, ele se preocupará mais em ministrar do que em ser ministrado, e não procurará nada em troca. Como o grande apóstolo de seu mestre, ele muito "gastará e será gasto" pelos outros, mesmo que o retratem com ódio, e não com amor. A verdadeira caridade não quer salários. Seu trabalho é sua recompensa.

A caridade da Bíblia se mostrará na prontidão de um crente para suportar o mal e fazer o bem. Isso o fará paciente sob provocação, perdoando quando ferido, manso quando injustamente atacado, quieto quando caluniado. Isso o fará suportar muito e tolerar muito, aguentar muito e examinar muito, submeter-se com frequência e negar a si mesmo com frequência, tudo por uma questão de paz. Isso o fará colocar um pouco de temperamento forte e um freio forte na língua. A verdadeira caridade nem sempre pergunta: "Quais são os meus direitos? Sou tratado como mereço?", mas: "Como posso promover melhor a paz? Como posso fazer o que é mais edificante para os outros?".

A caridade da Bíblia se mostrará no espírito geral e no comportamento de um crente. Isso o tornará gentil, altruísta, agradável, bem-humorado e atencioso com os outros. Isso o tornará gentil, afável e cortês, em todas as relações cotidianas da vida privada, pensativo para o conforto dos outros, terno para os sentimentos dos outros e mais ansioso para dar prazer do que receber. A verdadeira caridade nunca inveja os outros quando prosperam, nem se alegra com as calamidades dos outros quando estão com problemas. Em todos os momentos, ele acreditará e esperará, e tentará colocar uma boa construção nos atos dos outros. E, na pior das hipóteses, será cheio de piedade, misericórdia e compaixão.

Gostaríamos de saber onde o verdadeiro padrão de caridade como esse pode ser encontrado? Temos apenas que olhar para a vida de nosso Senhor Jesus Cristo, conforme descrito nos Evangelhos, e a veremos perfeitamente exemplificada. A caridade brilhou em todos os Seus feitos. Sua vida cotidiana era um incessante "indo", fazendo o bem. - A caridade brilhou em todo o Seu comportamento. Ele era continuamente odiado, perseguido, caluniado, deturpado. Mas Ele pacientemente suportou tudo. Nenhuma palavra irada jamais caiu de Seus lábios. Nenhum mau humor apareceu em Seu comportamento. "Quando Ele foi injuriado, Ele não ofendeu novamente: quando sofreu, não ameaçou" (1 Pedro 2. 23). A caridade brilhou em todo o Seu espírito e conduta. A lei da bondade estava sempre em Seus lábios. Entre discípulos fracos e ignorantes, entre peticionários doentes e tristes por ajuda e alívio, entre publicanos e pecadores, entre fariseus e saduceus, Ele sempre foi o mesmo - gentil e paciente com todos.

E, no entanto, lembre-se, nosso abençoado Mestre nunca lisonjeava os pecadores, ou convivia com o pecado. Ele nunca encolheu de expor a maldade em suas cores verdadeiras, ou de repreender aqueles que se apegariam a ela. Ele nunca hesitou em denunciar a falsa doutrina, por quem quer que ela fosse defendida, ou exibir práticas falsas em suas cores verdadeiras e no fim certo a que ela tende. Ele chamou as coisas pelo nome certo. Ele falou livremente do inferno e do fogo que não se apaga, como do céu e do reino de glória. Ele deixou uma prova eterna de que a caridade perfeita não exige que aprovemos a vida ou as opiniões de todos, e que é bem possível condenar a falsa doutrina e a prática perversa, e ainda assim estar cheio de amor ao mesmo tempo.

Apresentei agora a meus leitores a verdadeira natureza da caridade bíblica. Dei uma curta e breve descrição do que não é e do que é. Não posso passar adiante sem sugerir dois pensamentos práticos, que pressionam minha mente com força pesada, e espero que possam pressionar os outros.

Você já ouviu falar de caridade. Pense, por um momento, como deploravelmente pouca caridade existe na terra! Quão conspícua é a ausência de amor verdadeiro entre os cristãos! Não falo de pagãos agora, falo de cristãos. Que temperamentos irados, que paixões, que egoísmo, que línguas amargas podem ser encontradas em famílias particulares! Que disputas, que brigas, que maldade, que malícia, que vingança, que inveja entre vizinhos e paroquianos! Que ciúmes e contendas entre clérigos e dissidentes, calvinistas e arminianos, altos clérigos e baixos clérigos! "Onde está a caridade?" podemos perguntar: "Onde está o amor? Onde está a mente de Cristo?", quando olhamos para o espírito que reina no mundo. Não é de admirar que a causa de Cristo pare e a infidelidade abunda, quando o coração dos homens conhece tão pouco da caridade! Certamente, podemos bem dizer: "Quando vier o Filho do homem, encontrará caridade na terra?"

Pense, por outro lado, que mundo feliz seria se houvesse mais caridade. É a falta de amor que causa metade da miséria que existe na terra. Doença, morte e pobreza, não serão responsáveis ​​por mais da metade das dores. O resto vem de mau humor, má natureza, disputas, brigas, ações judiciais, malícia, inveja, vingança, fraudes, violência, guerras e similares. Seria um grande passo para dobrar a felicidade da humanidade e reduzir pela metade suas tristezas, se todos os homens e mulheres estivessem cheios de caridade bíblica.


III. Deixe-me mostrar, em terceiro lugar, de onde vem a caridade da Bíblia.

A caridade, como descrevi, certamente não é natural para o homem. Naturalmente, somos todos mais ou menos egoístas, invejosos, mal-humorados, maldosos, desagradáveis e cruéis. Temos apenas que observar as crianças, quando deixadas a si mesmas, para ver a prova disso. Deixe meninos e meninas crescerem sem treinamento e educação adequados, e você não verá um deles possuindo caridade cristã. Marque como alguns deles pensam primeiro em si mesmos e em seu próprio conforto e vantagem! Marque como os outros estão cheios de orgulho, paixão e temperamentos malignos! Como podemos explicar isso? Há apenas uma resposta. O coração natural nada sabe da verdadeira caridade.

A caridade da Bíblia nunca será encontrada, exceto em um coração preparado pelo Espírito Santo. É uma planta tenra e nunca crescerá, exceto em um solo. Você também pode esperar uvas em espinhos ou figos em cardos, como procurar caridade quando o coração não está certo.

O coração em que a caridade cresce é um coração mudado, renovado e transformado pelo Espírito Santo. A imagem e semelhança de Deus, que Adão perdeu na Queda, foram restauradas, por mais débil e imperfeita que possa ser a restauração. É um "participante da natureza Divina", pela união com Cristo e filiação a Deus; e uma das primeiras características dessa natureza é o amor (2 Pedro 1. 4).

Tal coração está profundamente convencido do pecado, odeia, foge dele e luta com ele dia após dia. E um dos principais movimentos do pecado, que ele trabalha diariamente para vencer, é o egoísmo e a falta de caridade.

Esse coração é profundamente sensível à sua poderosa dívida com nosso Senhor Jesus Cristo. Parece continuamente que deve àquele que morreu por nós na cruz, todo o seu conforto atual, esperança e paz. Como pode demonstrar sua gratidão? O que pode render ao seu Redentor? Se nada mais puder fazer, ela se esforça para ser como Ele, para beber em Seu espírito, para seguir Seus passos e, como Ele, para estar cheio de amor. "O amor de Cristo derramado no coração pelo Espírito Santo" é a fonte mais segura da caridade cristã. O amor produzirá amor.

Peço atenção especial do meu leitor a este ponto. É de grande importância nos dias atuais. Muitos professam admirar a caridade, enquanto não se importam com o cristianismo vital. Eles gostam de alguns dos frutos e resultados do Evangelho, mas não a raiz da qual esses frutos por si só podem crescer, ou as doutrinas com as quais eles estão inseparavelmente conectados.

Centenas elogiarão o amor e a caridade, que odeiam ser informados da corrupção do homem, do sangue de Cristo e da obra interior do Espírito Santo. Muitos pais gostariam que seus filhos crescessem altruístas e de bom humor, mas não ficariam muito satisfeitos se a conversão, o arrependimento e a fé fossem pressionados para sua atenção.

Agora, desejo protestar contra essa noção de que você pode ter os frutos do cristianismo sem raízes - que pode produzir temperamentos cristãos sem ensinar doutrinas cristãs - que pode ter caridade que se desgastará e permanecerá sem graça no coração.

Concedo, com toda a liberdade, que de vez em quando se vê uma pessoa que parece muito caridosa e amável, sem nenhuma religião doutrinária distinta. Mas tais casos são tão raros e notáveis ​​que, como exceções, apenas provam a verdade da regra geral. E muitas vezes, com muita frequência, pode-se temer nesses casos que a aparente caridade apenas pareça e, em particular, fracasse completamente. Acredito firmemente que, como regra geral, você não encontrará a caridade descrita pela Bíblia, exceto no solo de um coração completamente imbuído da religião bíblica. A prática santa não florescerá sem uma sã doutrina. O que Deus uniu, é inútil esperar separar e dividir.

A ilusão que estou tentando combater é levada a um grau mais pernicioso pela grande maioria dos romances, novelas e contos de ficção. Quem não sabe que os heróis e heroínas dessas obras são constantemente descritos como padrões de perfeição? Eles estão sempre fazendo a coisa certa, dizendo a coisa certa e mostrando o temperamento certo! Eles são sempre gentis, amáveis, altruístas e perdoadores! E, no entanto, você nunca ouve uma palavra sobre a religião deles! Em suma, a julgar pela generalidade das obras de ficção, é possível ter uma excelente religião prática sem doutrina, os frutos do Espírito sem a graça do Espírito e a mente de Cristo sem união com Cristo!

Aqui está, em suma, o grande perigo de ler a maioria dos romances, novelas e obras de ficção. A maior parte deles fornece uma visão falsa ou incorreta da natureza humana. Eles pintam seu modelo de homens e mulheres como deveriam ser, e não como realmente são. Os leitores de tais escritos enchem suas mentes de concepções erradas sobre o que é o mundo. Suas noções de humanidade se tornam visionárias e irreais. Eles estão constantemente à procura de homens e mulheres que nunca conhecem, e esperando o que nunca encontram.

Permita-me pedir aos meus leitores, de uma vez por todas, que tirem suas ideias da natureza humana da Bíblia, e não de romances. Estabeleça em sua mente que não pode haver verdadeira caridade sem um coração renovado pela graça. Um certo grau de bondade, cortesia, amabilidade, boa natureza pode ser visto sem dúvida em muitos que não têm religião vital. Mas a planta gloriosa da caridade bíblica, em toda a sua plenitude e perfeição, nunca será encontrada sem a união com Cristo e a obra do Espírito Santo. Ensine isso a seus filhos, se você tiver algum. Mantenha-o nas escolas, se você estiver conectado a algum. Levante a caridade. Faça muita caridade. Não dê lugar a ninguém para exaltar a graça da bondade, amor, boa natureza, altruísmo, bom humor. Mas nunca, nunca esqueça, que existe apenas uma escola na qual essas coisas podem ser completamente aprendidas, e essa é a escola de Cristo. A verdadeira caridade desce de cima. O verdadeiro amor é o fruto do Espírito. Aquele que quiser, deve sentar-se aos pés de Cristo e aprender d'Ele.


IV. Por fim, deixe-me mostrar por que a caridade é chamada de "a maior" das graças.

As palavras de São Paulo, sobre esse assunto, são distintas e inconfundíveis. Ele encerra seu maravilhoso capítulo sobre caridade da seguinte maneira: "Agora permanece fé, esperança, caridade, esses três: mas o maior deles é a caridade" (1 Coríntios 13. 13).

Essa expressão é muito notável. De todos os escritores do Novo Testamento, nenhum certamente exalta a "fé" tão altamente quanto São Paulo. As epístolas aos romanos e gálatas são abundantes em frases que mostram sua grande importância. Por meio disso, o pecador se apega a Cristo e é salvo. Por meio dele somos justificados e temos paz com Deus. No entanto, aqui o mesmo São Paulo fala de algo que é ainda maior que a fé. Ele coloca diante de nós as três principais graças cristãs e pronuncia o seguinte julgamento sobre elas: "A maior é a caridade". Tal sentença de um escritor assim exige atenção especial. O que devemos entender quando ouvimos que a caridade é maior que a fé e a esperança?

Não devemos supor, por um momento, que a caridade possa expiar nossos pecados ou fazer as pazes com Deus. Nada pode fazer isso por nós, a não ser o sangue de Cristo, e nada pode nos interessar no sangue de Cristo, a não ser a fé. É uma ignorância bíblica não saber disso. O ofício de justificar e unir a alma a Cristo pertence somente à fé. Nossa caridade, e todas as nossas outras graças, são todas mais ou menos imperfeitas e não suportam a severidade do julgamento de Deus. Quando já fizemos tudo, somos "servidores não rentáveis" (Lucas 17. 10).

Não devemos supor que a caridade possa existir independentemente da fé. São Paulo não pretendia estabelecer uma graça em rivalidade com a outra. Ele não quis dizer que um homem poderia ter fé, outra esperança e outra caridade, e que o melhor deles era o homem que tinha caridade. As três graças são inseparavelmente unidas. Onde houver fé, sempre haverá amor; e onde houver amor, haverá fé. Sol e luz, fogo e calor, gelo e frio, não estão mais intimamente unidos do que fé e caridade.

As razões pelas quais a caridade é chamada a maior das três graças, parecem-me claras e simples. Deixe-me mostrar o que são.

(a) A caridade é chamada a maior das graças, porque é aquela em que há alguma semelhança entre o crente e seu Deus. 

- Deus não precisa de fé. Ele não depende de ninguém. Não há ninguém superior a Ele em quem Ele deva confiar. 
- Deus não precisa de esperança. Para Ele, todas as coisas são certas, sejam elas passadas, presentes ou futuras. 
- Mas "Deus é amor"; e quanto mais amor Seu povo tem, mais semelhantes a seu Pai celestial.

(b) A caridade, por outro lado, é chamada a maior das graças, porque é mais útil para os outros. Fé e esperança, sem dúvida, por mais preciosas que sejam, têm uma referência especial ao benefício individual de um crente. A fé une a alma a Cristo, traz paz com Deus e abre o caminho para o céu. A esperança enche a alma com alegre expectativa do que está por vir e, em meio aos muitos desânimos das coisas vistas, conforta-se com visões das coisas invisíveis. Mas a caridade é preeminentemente a graça que torna um homem útil. É a primavera de boas obras e bondade. É a raiz das missões, escolas e hospitais. A caridade fez os apóstolos gastarem e serem gastos pelas almas. A caridade levanta obreiros para Cristo e os mantém trabalhando. A caridade suaviza brigas e impede contendas, e nesse sentido "cobre uma infinidade de pecados" (1 Pedro 4. 8). A caridade adorna o cristianismo e o recomenda ao mundo. Um homem pode ter fé real e sentir isso, e ainda assim sua fé pode ser invisível para os outros. Mas a caridade de um homem não pode ser escondida.

(c) A caridade, em último lugar, é a maior das graças, porque é a que perdura por mais tempo. De fato, nunca morrerá. Um dia a fé será absorvida à vista e a esperança em certeza. O ofício destas graças será inútil na manhã da ressurreição e, como velhos almanaques, serão deixadas de lado. Mas o amor viverá através das eternas eras da eternidade. O céu será a morada do amor. Os habitantes do céu estarão cheios de amor. Um sentimento comum estará em todos os seus corações, e isso será caridade.

Deixo aqui esta parte do meu assunto e passo a uma conclusão. Em cada um dos três pontos de comparação que acabei de citar, entre caridade e outras graças, seria fácil ampliar. Mas o tempo e o espaço me proíbem de fazê-lo. Se eu disse o suficiente para proteger os homens contra erros sobre o significado correto da "grandeza" da caridade, estou contente. A caridade, como é sempre lembrado, não pode justificar e afastar nossos pecados. Não é Cristo, nem fé. Mas a caridade nos torna um pouco como Deus. A caridade é de grande utilidade para o mundo. A caridade viverá e florescerá quando o trabalho da fé for concluído. Certamente, nesses pontos de vista, a caridade merece bem a coroa.

(1) E agora, deixe-me perguntar a todos em cujas mãos este documento possa chegar uma pergunta simples. Deixe-me pressionar em sua consciência todo o assunto deste artigo. Você conhece alguma coisa da graça de que tenho falado? Você tem caridade?

A linguagem forte do apóstolo São Paulo certamente deve convencê-lo de que a investigação não é uma que deva ser levemente deixada de lado. A graça, sem a qual aquele homem santo poderia dizer: "Eu não sou nada", a graça que o Senhor Jesus diz expressamente é a grande marca de ser Seu discípulo - uma graça que exige a consideração séria de todos os que estão em sério sobre a salvação de sua alma. Deveria fazê-lo pensar: "Como isso me afeta? Tenho caridade?".

Você, provavelmente, tem algum conhecimento de religião. Você sabe a diferença entre doutrina verdadeira e falsa. Talvez você possa até citar textos e defender as opiniões que mantém. Mas lembre-se de que o conhecimento estéril de resultados práticos na vida e no temperamento é uma posse inútil. As palavras do apóstolo são muito claras: "Embora eu compreenda todo o conhecimento e não tenha caridade, não sou nada" (1 Coríntios 13. 3).

Você talvez pense que tem fé. Você confia que é um dos eleitos de Deus e descansa nisso. Mas certamente você deve se lembrar de que existe uma fé dos demônios, que é totalmente inútil, e que a fé dos eleitos de Deus é uma "fé que opera por amor". Foi quando São Paulo lembrou-se do "amor" dos tessalonicenses, bem como de sua fé e esperança, que ele disse: "Conheço sua eleição de Deus" (1 Tessalonicenses 1. 4).

Olhe para sua própria vida diária, tanto em casa como no exterior dela, e considere o lugar que a caridade das Escrituras tem nela. Qual é o seu temperamento? Como você se comporta em toda a sua família? Qual é a sua maneira de falar, especialmente em épocas de irritação e provocação? Onde está sua boa natureza, sua cortesia, sua paciência, sua mansidão, sua gentileza, sua tolerância? Onde estão suas ações práticas de amor ao lidar com os outros? O que você sabe da mente d'Aquele que "fez o bem" - que amou a todos, embora especialmente a seus discípulos -, que retribuiu o bem pelo mal e a bondade pelo ódio, e tinha um coração amplo o suficiente para sentir por todos?

O que você faria no céu, eu me pergunto, se você chegasse lá sem caridade? Que conforto você poderia ter em uma morada em que o amor era a lei, e o egoísmo e a natureza maligna eram completamente excluídos? Ai! Temo que o céu não seja lugar para um homem caridoso e, ao mesmo tempo, mal-humorado! O que disse um certo menino um dia? "Se o avô for para o céu, espero que eu e meu irmão não estejamos lá", "Por que você diz isso?" ele foi questionado. Ele respondeu: "Se ele nos vir lá, tenho certeza de que ele dirá, assim como faz agora:" O que esses garotos estão fazendo aqui? Deixe-os sair do caminho". "Ele não gosta de nos ver na terra, e suponho que ele não gostaria de nos ver no céu".

Não descanse até conhecer alguma coisa pela experiência da verdadeira caridade cristã. Vá e aprenda d'Aquele que é manso e humilde de coração, e peça que Lhe ensine como amar. Peça ao Senhor Jesus para colocar Seu Espírito dentro de você, tirar o coração antigo, dar-lhe uma nova natureza, fazer você conhecer algo de Sua mente. Clame a Ele noite e dia por graça, e não dê descanso a Ele até sentir algo do que descrevi neste artigo. Feliz, de fato, será sua vida quando você realmente entender "andar em amor".

(2) Mas não esqueço que estou escrevendo para alguns que não ignoram a caridade das Escrituras e que desejam sentir mais disso a cada ano. Vou lhe dar duas simples palavras de exortação. São elas: "Pratique e ensine a graça da caridade".

Pratique a caridade diligentemente. É uma daquelas graças, acima de tudo, que crescem em exercícios constantes. Esforce-se cada vez mais para levá-lo a todos os pequenos detalhes da vida cotidiana. Cuide da sua própria língua e do seu temperamento ao longo de todas as horas do dia - e especialmente no trato com empregados, filhos e parentes próximos. 

- Lembre-se do caráter da excelente mulher: "Na sua língua está a lei da bondade" (Provérbios 31. 26). 
- Lembre-se das palavras de São Paulo: "Faça todas as suas coisas com caridade" (1 Coríntios 16. 14). A caridade deve ser vista tanto nas pequenas como nas grandes coisas. 
- Lembre-se, não menos importante, das palavras de São Pedro: "Tenham fervorosa caridade entre si;" não uma instituição de caridade que se mantém acesa, mas um fogo ardente e brilhante, que tudo ao redor pode ver (1 Pedro 4. 8). 

Pode custar muita dor e esforço manter essas coisas em mente. Pode haver pouco incentivo do exemplo de outros. Mas persevere. Caridade como essa traz sua própria recompensa.

Por fim, ensine caridade aos outros. Pressione-o continuamente nos empregados, se houver. Diga a eles o grande dever de bondade, utilidade e consideração, um pelo outro. Pressione, acima de tudo, em crianças, se você tiver alguma. Lembre-os constantemente de que bondade, boa natureza e bom humor estão entre as primeiras evidências que Cristo requer nas crianças. Se eles não podem saber muito ou explicar doutrinas, podem entender o amor. A religião de uma criança vale muito pouco se ela consiste apenas em repetir textos e hinos. Por mais úteis que sejam, geralmente são aprendidos sem pensar, lembrados sem sentir, repetidos sem considerar seu significado e esquecidos quando a infância se foi. Por todos os meios, deixe que as crianças aprendam textos e hinos; mas que esse ensino não seja feito tudo em sua religião. Ensine-os a manter o temperamento, a serem gentis uns com os outros, a serem desinteressados, bondosos, atenciosos, pacientes, gentis, perdoadores. Diga-lhes para nunca esquecerem o dia da morte, se viverem tanto quanto Matusalém, que sem caridade, o Espírito Santo diz: "não somos nada". Diga-lhes que "acima de todas essas coisas, revesti-vos de caridade, que é o vínculo da perfeição" (Colossenses 3. 14).

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J. C. Ryle

Practical Religion (1879). Disponível em Gutenberg.


Nota:
[1] Na língua grega, a mesma palavra é usada apenas para "amor" e "caridade". Em nossa versão em inglês, nossos tradutores algumas vezes renderam essa palavra de uma maneira e às vezes de outra. N.A. - "Caridade", palavra usado por Ryle aqui, é uma tradução de Agape (ἀγάπη), presente nas Bíblias antigas, e atualmente é traduzido como "amor". Há um debate quanto à tradução adequada e se a troca para amor na Versão Revisada da King James, ocorrida no final do século XIX, não seja uma influência socialista (ver Charity vs. Love, de John M. Asquith e de Justin Johnson, além da crítica de Oscar Wilde) - N.T.

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Sobre Paulo Matheus

Esposo da Daniele, pai da Sophia, engenheiro, gremista e cristão. Seja bem vindo ao blog, comente e contribua!

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