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Sobre amar a Deus

Sobre amar a Deus; quanto Deus merece o amor do homem em reconhecimento de Seus dons, tanto materiais como espirituais: e como esses dons devem ser apreciados sem negligência do Doador.

Aqueles que admitem a verdade do que eu disse sabem, tenho certeza, por que devemos amar a Deus. Mas se os incrédulos não o concederem, sua ingratidão é imediatamente confundida por Seus inúmeros benefícios, esbanjados em nossa raça e claramente discernidos pelos sentidos. Quem é que dá alimento a todas as carnes, luz a todos os olhos, ar a todos os que respiram? Seria tolice começar um catálogo, já que acabei de chamá-los de inúmeros: mas nomeio, como exemplos notáveis, comida, luz do sol e ar; não porque sejam os melhores dons de Deus, mas porque são essenciais para a vida corporal. O homem deve buscar em sua própria natureza superior os dons mais elevados; e estes são dignidade, sabedoria e virtude. Por dignidade, quero dizer livre arbítrio, pelo qual ele não apenas supera todas as outras criaturas terrestres, mas tem domínio sobre elas. Sabedoria é o poder pelo qual ele reconhece essa dignidade e percebe também que não é uma realização própria. E a virtude impele o homem a buscar ansiosamente Aquele que é a Fonte do homem, e a agarrar-se firmemente a Ele quando Ele for encontrado.

Ora, esses três melhores dons têm cada um um caráter duplo. A dignidade aparece não apenas como uma prerrogativa da natureza humana, mas também como a causa daquele medo e pavor do homem que está sobre todos os animais da terra. A sabedoria percebe esta distinção, mas reconhece que embora esteja em nós, ela é, como todas as boas qualidades, não de nós. E, por último, a virtude nos move a buscar ansiosamente por um Autor e, quando o encontramos, nos ensina a nos apegar a Ele ainda mais avidamente. Considere também que dignidade sem sabedoria não vale nada; e a sabedoria é prejudicial sem virtude, como mostra o seguinte argumento: Não há glória em ter um dom sem sabê-lo. Mas saber apenas que você o possui, sem saber que não é de si mesmo que você o possui, significa gloriar-se, mas nenhuma glória verdadeira em Deus. E então o apóstolo diz aos homens, em tais casos: 'Que tens tu que não recebeste? Agora, se tu o recebeste, por que te glorias como se não o tivesses recebido? (1 Coríntios 4. 7). Ele pergunta: 'Por que te glorias?', mas continua, como se não o tivesses recebido, mostrando que a culpa não está em se gloriar por uma possessão, mas em gloriar-se como se ela não tivesse sido recebida. E, com razão, tal glória é chamada de glória vã, visto que não tem o sólido fundamento da verdade. O apóstolo mostra como discernir a verdadeira glória da falsa, quando diz: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor, isto é, na verdade, visto que nosso Senhor é a verdade (1 Coríntios 1. 31; João 14. 6).

Devemos saber, então, o que somos, e que não é por nós mesmos que somos o que somos. A menos que saibamos disso completamente, ou não nos gloriaremos de forma alguma, ou nossa glória será em vão. Finalmente, está escrito: "Se não sabes, segue o teu caminho seguindo as pegadas do rebanho" (Cânticos 1. 8). E isso está certo. Para o homem, sendo honrado, se ele não conhece sua própria honra, pode apropriadamente ser comparado, por causa de tal ignorância, aos animais que perecem. Não se conhecendo como a criatura que se distingue dos brutos irracionais pela posse da razão, começa a se confundir com eles porque, ignorante de sua verdadeira glória que está dentro, é levado cativo por sua curiosidade, e se preocupa com coisas externas e sensuais. Assim, ele é feito para se parecer com as classes inferiores por não saber que foi mais dotado do que eles.

Devemos estar em guarda contra essa ignorância. Não devemos nos classificar muito baixo; e com ainda maior cuidado devemos ver que não pensamos de nós mesmos mais altamente do que deveríamos, como acontece quando tolamente imputamos a nós mesmos qualquer bem que possa haver em nós. Mas muito mais do que qualquer um desses tipos de ignorância, devemos odiar e evitar essa presunção que nos levaria à glória em bens que não são nossos, sabendo que eles não são de nós mesmos, mas de Deus, e ainda não temendo roubar de Deus o honra devida a ele. Pois a mera ignorância, como no primeiro caso, não glorifica de forma alguma; e mera sabedoria, como na segunda, embora tenha uma espécie de glória, mas não se glorifica no Senhor. No terceiro mal caso, entretanto, o homem não peca por ignorância, mas deliberadamente, usurpando a glória que pertence a Deus. E essa arrogância é uma falta mais grave e mortal do que a ignorância do segundo, visto que despreza a Deus, enquanto o outro não O conhece. A ignorância é brutal, a arrogância é diabólica. Somente o orgulho, a principal de todas as iniquidades, pode nos fazer tratar os presentes como se fossem atributos legítimos de nossa natureza e, ao receber benefícios, roubar nosso Benfeitor de Sua devida glória. 

Portanto, à dignidade e à sabedoria devemos acrescentar a virtude, fruto próprio de ambas. A virtude busca e encontra Aquele que é o Autor e Doador de todo o bem, e que deve ser glorificado em todas as coisas; caso contrário, aquele que sabe o que é certo, mas deixa de cumpri-lo, será espancado com muitos açoites (Lucas 12. 47). Porque? você pode perguntar. Porque ele falha em colocar seu conhecimento em prática, mas ao invés disso, imagina o mal em sua cama (Salmo 36. 4); como um servo perverso, ele se desvia para se apoderar da glória que, seu próprio conhecimento lhe assegura, pertence apenas a seu bom Senhor e Mestre. É claro, portanto, que dignidade sem sabedoria é inútil e que sabedoria sem virtude é amaldiçoadora. Mas quando alguém possui virtude, então sabedoria e dignidade não são perigosas, mas abençoadoras. Tal homem invoca a Deus e o louva, confessando de todo o coração: "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Teu nome dá glória" (Salmo 115. 1). O que significa: 'Ó Senhor, não reivindicamos nenhum conhecimento, nenhuma distinção para nós mesmos; tudo é Teu, visto que de Ti vêm todas as coisas'.

Mas divagamos muito no desejo de provar que mesmo aqueles que não conhecem a Cristo são suficientemente admoestados pela lei natural, e por seus próprios dons de alma e corpo, a amar a Deus por amor a Deus. Resumindo: que infiel não sabe que recebeu luz, ar, alimento - tudo o que é necessário para a vida do seu corpo - somente d'Aquele que dá alimento a toda carne (Salmo 136. 25), que faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos (Mateus 5. 45). Quem é tão ímpio a ponto de atribuir a peculiar eminência da humanidade a qualquer outro, exceto Àquele que diz, em Gênesis: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança"? (Gênesis 1. 26). Quem mais poderia ser o Doador de sabedoria, senão Aquele que ensina o conhecimento ao homem? (Salmo 94. 10). Quem mais poderia conceder virtude, exceto o Senhor da virtude? Portanto, mesmo o infiel que não conhece a Cristo, mas pelo menos conhece a si mesmo, é obrigado a amar a Deus por amor a Deus. Ele é imperdoável se não ama o Senhor seu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento; pois sua própria justiça inata e bom senso clama de dentro que ele é totalmente obrigado a amar a Deus, de quem ele recebeu todas as coisas. Mas é difícil, ou melhor, impossível, para um homem, por sua própria força ou no poder do livre-arbítrio, render todas as coisas a Deus de quem elas vieram, sem antes desviá-las, cada um por sua própria conta, até mesmo como está escrito: 'Pois todos buscam o que é seu' (Filipenses 2. 21); e, novamente, "A imaginação do coração do homem é má desde a sua juventude" (Gênesis 8. 21). 

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Bernardo de Claraval

Sobre o amor de Deus (~1128)


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Sobre Paulo Matheus

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